PINK FLOYD – OBSCURED BY CLOUDS (1972)

“Obscured by Clouds” é o nome perfeito para o sétimo álbum do Pink Floyd. Isso porque, lançado em 2 de junho de 1972, ele ficou ofuscado e não teve muita atenção do público, mas deveria. Antecede a inegável obra-prima “The Dark Side of the Moon” de 1973, mas tem sim um grande valor musical. Ele foi gravado entre Fevereiro e Março de 1972, no Strawberry Studios, em Château d’Hérouville, na França.

A intenção do “Obscured by Clouds” foi para ser uma trilha sonora do filme “La Vallée” do diretor Barbet Schroeder, com quem eles já tinham trabalhado anteriormente em 1969. O filme narra a busca de um vale mítico, localizado em Papua Nova Guiné, pela esposa de um diplomata francês. Sendo assim, o primeiro título seria “The Valley”, mas houve um sério desentendimento da produtora com a banda e eles escolheram um novo nome. O tempo das músicas é harmônico, visto que os 106 minutos são bem distribuídos e variam de 2 a 5 minutos. Nada como o anterior que tinha “Echoes” com mais de 23 minutos.

Obscured by Clouds
A música título tem apenas 3 minutos, e é instrumental. Começa com uma nota persistente tocada no sintetizador, dando um ar especialmente dramático quando se pensa em trilhas sonoras. O som é crescente, a bateria começa suavemente marcando o tempo de maneira repetida e continua assim até o final. Logo é seguida pela guitarra, que só dá as caras mesmo lá perto do primeiro minuto, mas David Gilmour é David Gilmour, e fica até difícil escolher uma palavra para descrever. É tão bonito e tão rápido que quando se fecha os olhos para ouvir melhor, já acabou. E aí, é possível fazer uma metáfora com o resto do álbum, “Obscured by Clouds” passa tão rápido quanto uma nuvem encobrindo o sol. Você fica uns segundos confuso porque jura que a música acabou, mas parece que ela continua mesmo assim. É quase uma emenda com a próxima faixa.

When You’re In
Mas aí dá para dizer que “Obscured by Clouds” é uma introdução de “When You´re In” ou que “When You´re In” é uma continuação de “Obscured by Clouds”? Não! A primeira tem uma pegada bem mais psicodélica e melancólica. A segunda música do álbum já tem a bateria um pouco mais pesada. O teclado de Rick Wright se destaca aqui trazendo mais cor à “When You´re In” a partir dos 40 segundos. OK! Não dá pra dizer que ela é um primor do Pink Floyd e muito menos de “Obscured by Clouds”, ela é curtinha, com 2 minutos e meio.

Burning Bridges
A terceira música é a cara do Pink Floyd e podia muito bem fazer parte do icônico “The Dark Side of the Moon”. Isso porque “Burning Bridges” tem uma pegada que lembra muito “Breathe”. Traz uma nostalgia que você nem sabe do que. A guitarra e a bateria formam uma dupla circular que é complementada pelo vocal alternado de Gilmour e Wright, que é mais uma declamação da letra, complementando esse círculo infinito e melancólico. A letra é extremamente poética, outra marca registrada da banda. “Pontes queimando alegremente/Fundindo-se com as sombras/Agitando-se entre as linhas.”

The Gold, It’s in the…
“The Gold, It’s in the…” foge um pouco do progressivo e segue a linha do rock clássico, quase um The Who. Ela é mais animada e simples, sem a complexidade característica de Pink Floyd. A letra fala de uma jornada em busca de algo, possivelmente ouro, como diz o título. “Tudo que eu quero te falar, tudo que eu quero dizer / É que conte comigo nesta jornada / Não ache que eu irei ficar aqui.”Então, a música condiz muito com a excitação pela aventura, trazida pela mensagem na letra. Gilmour entra com um solo lá com 1 minuto e meio de música.

Wot’s, Uh…the Deal?
Essa talvez seja a música que mais sintetize a ideia principal do filme: a busca por si mesmo. “O Céu mandou a terra prometida/Tudo parece bem de onde eu estou/Porque eu sou o homem no lado de fora olhando para dentro.” A música começa com a melodia na guitarra e uma bateria suave. O vocal é bem intimista, quase um “voz e violão”, se não fosse Wright surgindo com um solo lá pelos 2 minutos e meio, que agrega ainda mais beleza para a música.

Mudmen
“Mudmen” é instrumental e traz o mesmo tema já apresentado em “Burning Bridges”. A questão aqui é que ela é mais trabalhada e com uma maior experimentação. Ela começa com Wright desenvolvendo a melodia, com uma sonoridade forte de órgão (daqueles de igreja mesmo!). Gilmour entra com um solo belíssimo lá por 1 minuto e meio, um agudo distorcido que quase representa um vocal. E se segue daí até o final dos 4 minutos uma complementação da guitarra distorcida e o órgão psicodélico.

Childhood’s End
A sétima música do sétimo álbum traz uma sensação de números cabalísticos. E “Childhood’s End” começa quase como uma trilha de suspense, mas só até o primeiro minuto, quando vai evoluindo em crescente até o momento do vocal de David Gilmour. Destaque para a percussão, que dá uma ideia do que ainda virá. A questão que fica aqui é, seria uma prévia de “Time”? Porque ela fala da questão do tempo e tem a sonoridade bem parecida. “Você navega além dos mares/De pensamentos e memórias que se foram/A infância acabou, suas fantasias/Se unem à dura realidade.”

Free Four
A música começa com um trocadilho em relação ao nome: “One, Two, FREE FOUR”. Quem faz o vocal aqui é Roger Waters, e a letra fala da morte de seu pai.“Mas você é o anjo de morte/E eu sou o filho do homem morto/Ele foi enterrado como uma toupeira em um buraco/E todo mundo ainda está na corrida”. Apesar de a letra ser triste e pesada, a sonoridade é leve e de uma certa alegria. Conformismo, talvez? Quase todos os fins de estrofes terminam com pratos de bateria, dando uma certa dramaticidade ao som. Um pequeno solo de guitarra distorcida lá por 1 minuto e meio e um mais longo depois com três minutos.

Stay
“Stay” é uma balada em que predomina o piano de Wright. “Fique e me ajude a terminar o dia/ E se não se importar, abriremos uma garrafa de vinho./ Fique por perto, e talvez a gente consiga terminá-la toda”. A música fala sobre uma noite só. “Vasculho minha mente tentando lembrar teu nome/ Para achar as palavras certas pra dizer adeus.” Com dois minutos e meio, surge um belíssimo (tá repetitivo?) solo de guitarra, com uma pegada meio blues.

Absolutely Curtains
A instrumental “Absolutely Curtains” é a mais experimental do álbum. Ela termina com o canto, apresentado no filme, da tribo Mapuga da Nova Guiné.

Pode não ser um dos álbuns icônicos, mas faz uma mistura da variação musical do Pink Floyd, que foi desde um som experimental a um mais comercial (“The Gold, It’s in the…”). “Obscured by Clouds” é um excelente petisco antes de “The Dark Side of the Moon”.

Formação:

David Gilmour – Guitarra, Vocal
Rick Wright – Teclado, Vocal
Roger Waters – Baixo, Vocal
Nick Mason – Bateria, Percussão

Faixas:

1.Obscured by Clouds
2.When You’re In
3.Burning Bridges
4.The Gold, It’s in the…
5.Wot’s, Uh…the Deal?
6.Mudmen
7.Childhood’s End
8.Free Four
9.Stay
10.Absolutely Curtains

*publicado originalmente em 09 de fevereiro de 2018, em Roadie Metal.

Resenha: Deep Purple – Burn (1974)

Uma das coisas importantes a dizer de “Burn” é a comprovação de que Deep Purple continua com ou sem os integrantes. Não só continua, no sentido simples da palavra, mas consegue se reinventar de uma maneira criativa. O oitavo álbum marca a entrada de David Coverdale, no vocal e de Glenn Hughes, no baixo, ocupando os lugares livres com a saída de Ian Gillan e Roger Glover, respectivamente.

Burn foi lançado em 15 de fevereiro de 1974 e atingiu o top 10 da Billboard nos Estados Unidos e o top 5 no Reino Unido. Gravado apenas três meses antes, em Montreux, na Suíça, no Rolling Stones Mobile Studio, o álbum conta com oito gravações e mostra toda a repercussão sonora trazida pelos novos integrantes. Saliento aqui também o desafio que qualquer produção artística tem em cada próximo trabalho, exercitar a criatividade sem afetar o estilo, com um produto final original e de personalidade.

01 – Burn – 6:04

A primeira música do disco, que dá título ao álbum, mantém a estrutura dos hits de sucesso, iniciando com um riff marcante e poderoso, e a bateria veloz de Ian Paice. Por isso, sim, “Burn” é o hit de sucesso do álbum, e também a que mais se aproxima da sonoridade conhecida até então. Colocada na primeira posição, talvez para não assustar os fãs e só então mostrar as influências de blues, soul e até funk (funk music, people, não confundam!). Ela tem seis minutos, dos quais os cinco primeiros segundos são para a guitarra de Blackmore, com a entrada de Paice no sexto segundo e só então os outros instrumentos. Coverdale é apresentado lá por 00:20, cantando com força e voz pesada, e revela parte de sua potência vocal no refrão. “Earth was shakin’, we stood and stared” (A terra estava mexendo, nós estávamos de pé e olhamos), seria uma metáfora para aquele período? Se sim, “All I hear is, “burn!” (Tudo o que ouço é, “queimem!”) traduz toda a ação do álbum.

02 – Might Just Take Your Life – 4:36

A segunda música “Might Just Take Your Life” já inicia com uma leve, bem leve, influência do soul. Com pouco mais de 4 minutos e meio, Coverdale parece soar mais à vontade nos vocais, mas o destaque é de Jon Lord, que conseguiu transpassar um pouco da sua personalidade musical. Apesar de ter alguns elementos interessantes, o resultado final é como se cada um estivesse num quarto separado, o que poderia ser bom, mas no caso específico aqui faltou um fio de ligação que promovesse a harmonia entre os elementos. Mas a letra pode até ser considerada uma profecia para o Deep Purple “Old man shakin’ dice down on the street/ Try’n to make a livin’ somehow / But i’m really sure about gettin’ things sorted out / And i’m gettin’ ready right now.” (Um velho homem jogando dados pelas ruas/ Tentando sobreviver de alguma forma/ Mas estou realmente certo De que as coisas vão melhorar/ E estou me preparando neste exato instante). Como assim uma profecia? Bem, as coisas não estavam muito bem para a banda, visto que o último álbum não foi um grande sucesso de vendas. E sim, as coisas iriam melhorar depois de “Burn”. Além, também de um aviso bem sério de que nada pode parar o Deep Purple: “You can’t hold me,/ I have told you.” (Você não pode me segurar, / Eu te disse).

03 – Lay Down, Stay Down – 4:15

Na terceira faixa, “Lay Down, Stay Down”, tem quatro minutos e é uma surpresa boa. Depois da excelente “Burn” e a meia-boca “Might Just Take Your Life”, a terceira música é estrategicamente importante. É nela que se decide continuar ou não ouvindo o álbum. E pessoalmente foi uma das que eu mais gostei e vou dizer porquê. Não, ela não é uma música passível de se tornar um grande clássico, mas tem seu valor. Lord finalmente se destaca aqui, junto com Paice, Coverdale e Hughes. Sim, há uma unicidade, soa como se eles realmente estivessem ao mesmo tempo, fazendo a mesma coisa. Finalmente, há sincronia, e isso dá uma beleza à música. Coverdale e Hughes se complementam no vocal. O garboso solo de Blackmore lá pelos dois minutos e meio da música, transpõe a influência do blues, e deixa a música muito mais interessante. A letra não é um primor na questão de criatividade, mas soa muito poética na voz de Coverdale.

04 – Sail Away – 5:48

Excelente questionamento é feito na letra de “Sail Away”, quando diz “Tell me,where do i belong?” (Me diga, onde eu pertenço?). A quarta música segue a mesma linha de “Lay Down, Stay Down”, com uma boa qualidade, mas sem nada grandioso. Com quase seis minutos, “Sail Away” não precisa ser a música preferida de ninguém, mas agrega valor ao álbum. Ela traz uma certa psicodelia, que é um traço recorrente do Deep Purple. A guitarra de Blackmore conversa lindamente com o baixo de Hughes. O vocal de David Coverdale é um charme a parte. “Sail Away” tem um certo groove, mas sem perder as raízes do rock. Se a mistura ficou boa? Bem, “Time will show, / When, i don’t know.” (O tempo mostrará / Quando, eu não sei). Atenção especial ao solo de guitarra distorcida, trazendo efeito psicodélico lá pelos 03 minutos e 15 segundos. Mais uma música em que a sincronia reinou e demonstra uma parcela do potencial do que essa formação poderia trazer.

05 – You Fool No One – 4:47

“You Fool No One” é groove demais para Deep Purple. É possível compreender aqui a revolta que Blackmore teria nos próximos anos. “You fool no one, waiting to see if I’m gone.” (Você não engana ninguém esperando para ver se eu parti). Olha groove querido, não que você tinha que partir, mas também não precisava ir tanto para o lado funk music, né? Vamos manter na linha do rock que tá tudo certo. Nem a letra se salva.

06 – What’s Goin’ On Here – 4:55

A sexta música do álbum traz uma influência do blues, não só na guitarra que arrebenta desde os primeiros acordes, mas também no ato de contar uma história com a letra. Tudo bem que o tema é bem rock ´n´ roll, com bebedeiras, mulheres e ressaca, muito válido para uma banda nos anos 70. Os primeiros quinze segundos há o diálogo intenso da guitarra, do teclado e da bateria, e em seguida a voz quase rouca de Coverdale. “Roll me over slowly, i’ve been drinkin’ all night,/ Help me make a move, i can’t stand the light.” (Me levante devagar, eu andei bebendo a noite toda / Me ajude a dar um passo, não consigo suportar a luz) Para então terminar com: “Spent the night chasin’ up a listed old flame, / Lyin’ on the floor i can’t remember her name. / I can’t stay here, there’s something wrong here. / What’s goin on here?” (Passei a noite à caça de uma velha paixão/ Deitado no chão não consigo lembrar o nome dela/ Eu não posso ficar aqui, há algo errado aqui / O que está acontecendo aqui?). O problema é ela ter ficado quase por último. Tudo bem que, se formos pensar na estrutura do LP, ela estaria como segunda música do lado B. Mas, ouvindo em sequência até aqui, dá pra se perder um pouco nesse mix musical que “Burn” traz, especialmente depois de “You Fool No One”. A música “What’s Goin’ On Here” é muito boa, mas fica apagada e parece totalmente fora de contexto nesse caso.

07 – Mistreated – 7:25

“Mistreated” é com certeza uma das estrelas de “Burn”. Ela começa com quase 30 segundos de um esplêndido solo de guitarra, e uma tímida bateria, apenas para marcar o tempo. O conjunto todo soa com uma sensualidade incandescente que, novamente, é temperada pela voz rouca de Coverdale. Reflete também toda a melancolia e a dor de ser “Mistreated”. Aquela coisinha que fica batendo no peito, contra a sua vontade. “Cause I know, yes, I know I’ve been mistreated./ Since my baby left me I’ve been losing, I’ve been losing, / I’ve been losing my mind, baby baby babe.” (Pois eu sei, sim, eu sei que eu fui maltratado. / Desde que minha garota me deixou eu ando perdendo, eu ando perdendo, / eu ando perdendo a cabeça, baby baby baby). Sua garota (ou garoto!) também te deixou? Coloca “Mistreated”, dá aquela sofridinha básica, e depois volta para o “Burn”, porque, vida que segue!

08 – ‘A’ 200 – 4:16

Bem, essa eles deixaram para o final porque é o maior desafio do álbum. O destaque é total para a Paice e Lord. “‘A’ 200” é experimental até no nome, com uma certa influência oriental, japonesa e indiana. E a bateria bem militar, soando como marcha de guerra. Tudo isso ao mesmo tempo. São quatro minutos de música instrumental.

A conclusão é que, ok, “Burn” não é exatamente uma máquina de hits de sucesso, mas não é um fracasso como muita gente clama por aí. Muito por conta do contexto em que ele foi criado. Afinal, observando todo o processo de criação do álbum, e as condições em que a banda se encontrava no momento. “Burn” foi gravado em três meses, com dois integrantes novos e conseguiu sim um produto final original e de personalidade, um pouco esquizofrênica e bipolar, é verdade. Talvez com mais tempo de produção, trabalho e uma maior sincronia e até mesmo intimidade entre os integrantes, transformasse o álbum em um grande sucesso.

Formação:

David Coverdale – vocal principal
Ritchie Blackmore – guitarra
Glenn Hughes – baixo, vocal
Jon Lord – teclados
Ian Paice – bateria

Faixas:

01 – Burn – 6:04
02 – Might Just Take Your Life – 4:36
03 – Lay Down, Stay Down – 4:15
04 – Sail Away – 5:48
05 – You Fool No One – 4:47
06 – What’s Goin’ On Here – 4:55
07 – Mistreated – 7:25
08 – ‘A’ 200 – 3:51

*publicada originalmente em 27 de novembro de 2017, na Roadie Metal.

MERCYFUL FATE – DEAD AGAIN (1998)

Mercyful Fate não é para qualquer um, verdade seja dita. King Diamond é um artista que aspira transpassar toda a sua intensidade e sensibilidade dentro de seu trabalho. Falar isso de um dos caras com maior influência do heavy metal parece desconexo, mas é a mais pura verdade. Afinal, o que dizer de alguém que gosta de compor à luz de velas e até mesmo realizar as gravações do estúdio assim? Ou então, no total escuro, para que ele possa sentir sobre o que está cantando. A grande jogada aqui é o constante balanço entre o personagem, suas lendas e a realidade do ser humano, entre maquiagens e jeans, camiseta e boné. E isso King faz muito bem!

Em uma entrevista para a MTV’S Headbangers Ball, King falou sobre a volta da banda e de como, naquele momento eles estavam maduros e não brigavam mais em relação a composição das músicas. Uma das razões citadas foi o fato de que eles tiveram suas bandas próprias e aprenderam sobre suas personalidades e também evoluíram no quesito de como gravar músicas. Em uma entrevista para o programa Fúria Metal, apresentado por Gastão Moreira, King disse que o álbum que eles estavam gravando estava pesado. “It´s heavy, it´s so heavy, man!” e emendou com um “Foi provavelmente o melhor álbum que a gente já fez”.

Ele estava falando do oitavo álbum, “Dead Again”, gravado em 1997, nos meses de outubro, novembro e dezembro, no Nomad Recording Studio, Carrollton, Texas. A escolha foi por um estúdio diferente do usado para os últimos álbuns, pequeno e intimista. King acredita que esse feito da gravação passou para as músicas e podem ser percebidas pelo público. Ele também disse que o equipamento era melhor em relação aos outros. Foi produzido e mixado por Sterling Winfield.

“Dead Again” é composto por dez músicas e foi lançado em 9 de junho de 1998, pela Metal Blade Records. Ele tem um total de 59 minutos, e é composto por canções mais longas, visto que a que dá nome ao álbum tem 13 minutos. Houve uma harmonia em relação à composição das músicas, entre Sherman e Diamond. “Torture (1629)”, “The Night”, “Mandrake” e “Dead Again” foram compostas por Sherman e “Since Forever”, “The Lady Who Cries”, “Banshee”, “Sucking your Blood” e “Fear”, por Diamond.

Realmente esse álbum tem uma pegada mais forte, diante do que foi apresentado em “Into The Unknow”, especialmente com “Torture (1629)” e “The Night”. O grande destaque vai para “Banshee”, que fala sobre o aviso da chegada da morte pelo choro da criatura da mitologia celta.

Formação

King Diamond – Vocal
Hank Sherman – Guitarra
Mike Wead – Guitarra
Sharlee D’Angelo – Baixo
Bjarne T. Holm – Bateria

Track list

  1. Torture (1629)
  2. The Night
  3. Since Forever
  4. The Lady Who Cries
  5. Banshee
  6. Mandrake
  7. Sucking your Blood
  8. Dead Again
  9. Fear
  10. Crossroads

*publicada originalmente em 29 de dezembro de 2017, na Roadie Metal.

OPETH – DAMNATION (2003)

“Damnation” é sétimo álbum de estúdio da banda Opeth. Fato curioso é que ele foi lançado no dia 22 de abril de 2003. Sim, “Damnation” está completando 15 anos hoje! O álbum foi gravado no Studio Fredman, na Suécia, entre os meses de julho e setembro de 2002. A proposta dele é bem diferente do som que o Opeth apresentava até então. “Damnation” veio sem vocais guturais, guitarras mais trabalhadas e uma vibe de rock progressivo dos anos 70.

Em uma entrevista para a Billboard, o frontman do Opeth, Mikael Akerfeldt contou um pouco do processo do álbum.““Damnation” deixa uma memória mais feliz por algum motivo, mas acho que fiquei mais empolgado com esse disco porque não tínhamos feito nada assim. Isso sempre soou ótimo, eu acho”, disse.

É um álbum extremamente lírico, e não há como fazer uma análise sem se deixar levar pela poesia toda que ele remete. Então, de antemão, peço desculpas pelas pitadas de viagem poética que virão na sequência!

“Windowpane” é uma música de quase 8 minutos. Ela começa com a melodia na guitarra, e em dez segundos a bateria faz uma introdução e complementa o ritmo. O som tem um lirismo constante, aliás em praticamente todo o álbum. Dá uma vontade imensa de encostar a cabeça na janela e olhar para fora. Aliás, é bem assim que a letra começa: “Blank face in the windowpane” (Rosto pálido na vidraça). Uma espécie de solidão melancólica, em cada nota, realçado pelo tom da voz de Mikael Akerfeldt. “Haunting loneliness in the eye” (Uma solidão que assombra em seus olhos). De 1:12 até 1:49, a guitarra dá o tom da melancolia, transformando em som aquela dorzinha no peito quase sem definição. Mas a surpresa da música vem mesmo lá pelo 03:38 que a bateria vem para o primeiro plano, causando uma quebra no ritmo. E aí a linha vai quase para um suspense. Até quando lá por 04:40 encontra uma espécie de redenção, com uma guitarra melancólica, mas esperançosa até. Aliás, voltei algumas vezes aqui, tamanha a beleza desse solo. Não é a toa que essa é a mais longa do álbum, afinal, quanto tempo dura a melancolia?

A primeira coisa que se nota em “In My Time of Need” é o vocal marcando o tempo junto com a bateria. Há uma guitarra ecoando no fundo, que puxa o clima melancólico proposto pelo álbum. Em 1 minuto pode-se perceber uma leve influência de “Time”, do Pink Floyd. Proposital ou não, está lá. O que me atraiu bastante nessa música foi o uso da voz em diferentes tempos. Mais rápido, usando quase como um rap, até o mais espaçado possível nas palavras. Isso foi muito bem trabalhado aqui e deu um efeito muito interessante para esta música. Ela tem 5:46, é um pouco mais longa que o esperado, mas não se torna repetitiva por conta dos elementos bem distribuídos. A letra fala sobre a sensação de estar sozinho e desprotegido. “And I should contemplate this change/ To ease the pain/ And I should step out of the rain/ Turn away” (E eu devo contemplar esta mudança/Para amenizar a dor/E eu deveria sair debaixo da chuva/E virar às costas).

Bom, o que se espera de uma música cujo título é “A Morte Sussurrou Uma Canção de Ninar”, é que ela seja sombria, certo? E “Death Whispered A Lullaby” passa uma certa desesperança. “Speak to me now and the world will crumble/Open a door and the moon will fall/All of your life, all your memories/Go to your dreams, forget it all” (Fale comigo agora e o mundo irá se despedaçar/Abra uma porta e a lua cairá/Toda a sua vida, todas as suas memórias/Vão para os teus sonhos, esqueça tudo). A repetição de “Oh, sleep my child” (Oh, durma, minha criança) é um sentido de desistência mesmo, durma porque não há mais nada a ser feito.

“Closure” foi a minha preferia do álbum. Uma porque ela tem uma mistura de elementos que faz você se perder lá pelo 1:30. Você tem que parar para ouvir realmente. Como se cada instrumento fizesse uma coisa por si, mas dentro de uma harmonia que serve de exemplo para o que é barulho do que é música. Afinal, não é só colocar vários instrumentos juntos, eles devem conversar entre si para criar um sentido, certo? Closure é assim, nos primeiros segundos você se pergunta, o que é isso? Mas depois compreende. “Awaiting word on what’s to come/In helpless prayers a hope lives on/As I’ve come clean I’ve forgotten what I promised/In the rays of the sun I am longing for the darkness” (Aguardando a informação sobre o que virá/Em devotos indefesos a esperança sobrevive/Vim purificado e me esqueci do que prometi/Sob os raios do sol eu aguardo pela escuridão)

“Hope Leaves” tem praticamente 4 minutos e meio de duração. Apesar do nome, ela não é tão melancólica quanto “Windowpane”. Tem certa tristeza que já se percebe nos primeiros minutos da guitarra. A bateria só entra depois de 1:20, o que dá uma sensação crescente na música. “There is a wound that’s always bleeding/There is a road I’m always walking/And I know you’ll never return to this place.” (Há uma ferida que sempre está sangrando/Há uma estrada que eu sempre estou caminhando/E eu sei que você nunca voltará a este lugar)

“To Rid The Disease”, com mais de seis minutos e “Ending Credits”, com mais de três mantém o estilo melancólico do álbum. “Weakness” entretanto tem uma pegada psicodélica bem interessante, especialmente pelo uso do mellotron.

Track List

1.Windowpane
2.In My Time Of Need
3.Death Whispered A Lullaby
4.Closure
5.Hope Leaves
6.To Rid The Disease
7.Ending Credits
8.Weakness

Formação:

Martin Mendez – Baixo
Martin Lopez – Bateria/Percussão
Peter Lindgren – Guitarra
Mikael Åkerfeldt – Guitarra e Vocal
Steven Wilson – Piano, Mellotron, Backing vocal

*publicada originalmente em 22 de abril de 2018, na Roadie Metal.

IRON MAIDEN – POWERSLAVE (1984)

Powerslave foi o quinto álbum de estúdio gravado pelo Iron Maiden. Eles já haviam lançado o homônimo Iron Maiden em 1980, o Killers em 1981, The Number of The Beast em 1982 e o Piece of Mind em 1983. Powerslave veio com certeza para reforçar o lugar de honra que o Iron Maiden tem na história do metal. Depois de “Aces High”, “Rime of the Ancient Mariner” e a que dá nome ao álbum, não dava mais para dizer que Iron Maiden só tinha temas satânicos em suas letras. Fama que eles ganharam após o lançamento de “The Number of The Beast”, erroneamente, diga-se de passagem. A revista Rolling Stone, no ano de 2017, considerou Powerslave como o 38° melhor álbum de metal de todos os tempos.

O quinto álbum do Iron Maiden foi produzido em março de 1984 por Martin Birch e gravado no Compass Point Studios, em Nassau nas Bahamas. A mixagem foi feita em Nova York, no Electric Lady Studios. Powerslave foi lançado em 03 de setembro de 1984. Em 13 de outubro de 1984, ele entrou em 21° para a lista da Billboard e ficou lá por 34 semanas.

Powerslave – Lado A

O álbum conta com 8 músicas. Quem abre a ordem do Lado A é “Aces High”, um clássico. Imagine você lá por 1985 colocando Powerslave na vitrola e escutando os 20 primeiros segundos que sugestionam uma preparação para a guerra de uma maneira tão inovadora que só o Maiden era capaz de produzir. Lá pelos 40 segundos o volume já está no máximo e você automaticamente levanta e balança a cabeça ao som da voz do Bruce. E quando você pensa que “ah, a próxima música não vai ser tão boa assim”, começa a guitarra em “2 Minutes to Midnight”. Mesmo que inglês não seja o seu forte, o refrão não vai sair da sua cabeça jamais! (Aliás, aposto que você leu o título da música cantando, dando aquela pausa depois do 2). Não foi a toa que essas duas músicas foram lançadas como singles.

“Losfer Words (Big ‘Orra)” é uma faixa instrumental. Sem palavras, né? Exatamente isso! “Flash of The Blade”, “you´ll die as you lived/In the flash of a blade/In a corner forgotten by no one” (Você vai morrer como viveu, no brilho de uma lâmina, em um canto esquecido por todo mundo). Um minuto de silêncio por todos aqueles que morreram nas grandes batalhas com espadas. Não, pera. Quatro minutos! E na mesma onda vem “The Duellists”, que faz você se sentir quase que em Age of Empires.

Powerslave – Lado B

“Back in the Village” abre o Lado B. Depois da pausa básica para virar o disco de lado, a intro dela tem um que diferente e uma pegada de blues, country, ou o quê que quer que seja isso. Mas só nos primeiros 20 segundos. Bruce entra com sua voz inegável e, cara, que voz! A música que dá nome ao álbum é uma das últimas. “Powerslave” não dá só o nome mas traz toda a temática e a ligação com a mitologia egípcia. “Tell me why I had to be a Powerslave/ I don’t wanna die, I’m a God,/ why can’t I live on?” (Me diga porque eu tenho que ser um escravo do poder/ Eu não quero morrer, eu sou um Deus/ Por que não posso continuar vivo?) Aqui cabe um ponto em falar sobre a questão da Arte. As obras de arte que são consideradas relevantes discutem um âmbito maior do que ela em si. E “Powerslave” é exatamente isso. Ela discute com maestria a questão de que um Faraó, considerado um Deus na Terra, é um escravo do poder da morte. É que é tanta coisa para se prestar atenção nessa música que caberia uma matéria só para analisar toda a simbologia. Quem fecha o álbum é a icônica “Rime of the Ancient Mariner”. Durante muito tempo foi uma das mais longas músicas do Iron Maiden, com 13 minutos. Mas, claro, ela é mais do que isso. A ligação dela aqui vai com a literatura. Ela é inspirada no poema de Samuel Taylor Coleridge, considerado o marco do início da literatura romântica na Inglaterra.

Faixas

  1. Aces High 04:29
  2. 2 Minutes to Midnight 05:59
  3. Losfer Words (Big ‘Orra) 04:12
  4. Flash of the Blade 04:02
  5. The Duellists 06:06
  6. Back in the Village 05:20
  7. Powerslave 06:47
  8. Rime of the Ancient Mariner 13:36

Formação:
Bruce Dickinson – vocal
Adrian Smith – guitarra
Dave Murray – guitarra
Steve Harris – baixo
Nicko McBrain – bateria

Por ainda ser um álbum relevante depois de 30 anos da sua criação e se manter completamente atemporal, com o bônus de mesclar mitologia, história, literatura e música, merece um 10 bem redondo!

*publicado originalmente em 13 de julho de 2018, na Roadie Metal.

SABATON – CAROLUS REX (2012)

O Sabaton tem como um de suas características principais trazer a história para sua música. O contexto de sua criação artística trabalha acontecimentos reais e seus desdobramentos para sua obra. Carolus Rex não poderia ser diferente. O cenário é a Suécia, terra natal do Sabaton. A conjuntura histórica desse álbum fala dos eventos ocorridos entre a Guerra dos Trinta Anos e a Grande Guerra do Norte, tais como A Batalha de Breitenfeld (1631), A Batalha de Praga (1648), e a derrota do exército sueco frente as tropas russas, em A Batalha de Poltava.

O nome do álbum Carolus Rex tem relação com o rei Karl XII ou Carlos XII que governou a Suécia de 1697 até 1718. Ele tinha a ideia de que seu país era uma grande potência e fez o que podia para se tornar assim. Se formos comparar com outras formas artísticas, pode ser considerado quase que uma “ode” ao império sueco que se formou nesse período, desde sua ascensão até a queda, com a morte do monarca.

O sexto álbum da banda foi lançado no dia 25 de maio de 2012 pela Nuclear Blast Records. No dia 30 de novembro de 2018 será lançada edição limitada de platina de “Carolus Rex”. A data foi escolhida para homenagear os 300 anos da morte do rei. “Para comemorar, estaremos lançando uma série de edições limitadas deste álbum em 30 de novembro – precisamente 300 anos a partir do dia em que o Rei Carlos morreu e o Império Sueco terminou.”, a banda escreveu em seu Twitter.

O grande ponto aqui que ilumina esse álbum para um contexto artístico extremamente interessante é o fato de não apenas narrar a história, mas trazer o pensar sobre ela. A quarta música do álbum, “A Lifetime of War” fala da miséria causada pela Guerra dos Trinta Anos, trazendo tanto o lado inglês, na versão inglesa, quanto o sueco, na versão sueca. Como o nome já diz “uma vida inteira de guerra”, e como sobreviver nesse meio tempo? “Has man gone insane/A few will remain” (“Será que o homem enlouqueceu?/Poucos permanecerão”). Um questionamento que sobreviveu o período da guerra e pode ser utilizado até os dias de hoje.

A primeira capa é a versão sueca e a segunda, a inglesa.
Tracklist:

  1. Dominium Maris Baltici
  2. The Lion From The North
  3. Gott Mit Uns
  4. A Lifetime Of War
  5. 1648
  6. The Carolean’s Prayer
  7. Carolus Rex
  8. Killing Ground
  9. Poltava
  10. Long Live The King
  11. Ruina Imperii
  12. In The Army Now (Status Quo Cover)

Formação:
Joakim Broden– Vocal
Rikard Sunden– Guitarra
Oskar Monetlius– Guitarra
Par Sundstrom– Baixo
Daniel Mullback– Bateria
Daniel Myhr– Teclado

*publicado originalmente em 29 de setembro de 2018, na Roadie Metal.

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