Primeiro dia

01 de janeiro. Tudo parece o mesmo. O céu se transformou do azul escuro para o claro. O vizinho do prédio ao lado esticou seu braço para fora da janela do banheiro com o cigarro. Aos poucos o céu azul foi se tornando cinza. Há mais silêncio nesta sexta-feira. Ninguém andando nas ruas. Os passarinhos piam e voam livremente. O barulho de máquina que vem da padaria ao lado. A gata miou para pedir água e comida. Nada diferente dos outros dias. Mas o ônibus ainda não veio e ninguém desceu para passear com o cachorro. Uma manhã tão comum e tão atípica. A grande representação da antítese.
Essa manhã de 01 de janeiro traz também um misto de esperança e gratidão. O sentimento de escolha da vida que se quer nesse 2021. O desejo de mudar invade o peito e toma espaço, parecendo mais plausível do que nunca. Parecendo mais certo e com mais sentido do que sempre.
As badaladas do sino da igreja alertam que o dia já raiou, o ônibus já apareceu e a vida nessa manhã de 2021 oficialmente começou. O sol ainda está por detrás das nuvens, encoberto, descansando para iluminar o novo ano.

Homenagem aos poetas curitibanos

Esses dias estava discutindo com meu irmão sobre a origem da poesia na nossa família. Influência é uma coisa tão importante que com certeza monta uma linha tênue sobre tudo. Isso me fez revisitar a minha própria relação com a poesia. Foi depois que me mudei para Curitiba que escrevi meus primeiros poemas. Primeiro porque, antes disso, eu mal sabia escrever. Segundo, porque foi andando pela cidade que conheci muitos poetas e poetisas. E é sobre essa relação da poesia com a cidade que vou falar por aqui nos próximos dias. Ainda que nem todos tenham nascido aqui, vou falar sobre os meus Poetas Curitibanos.

Fiz uma seleção da descoberta desses poetas em passeios pela cidade. Dos que saíram dos livros e se tornaram interações até reais, na rua. Dos poemas estampados nos muros. Da vida que se gerou em torno deles. A proposta surgiu quando estava criando conteúdo para o meu instagram @adanipoetisa. Selecionei algumas frases que faziam sentido para mim e quando me dei conta, estavam elas, lá, em grupo, contando suas próprias histórias.

Adanibella sempre foi uma janela para as minhas poesias e textos, alguns literários, outros nem tanto. Resolvi abrir o leque para essa produção e anunciar mesmo uma nova etapa, com conteúdos voltados para a Literatura de maneira geral. Espero que vocês continuem me acompanhando por aqui.

Dia do Rock – Antônio Variações

💝 Mulheres & Poesias 💝
Iniciamos esta semana ao som do rock, uma vez que hoje além de ser Dia do Cantor é também Dia Mundial do Rock (apenas no Brasil). Partilhamos a letra de uma música de Antônio Variações:

ESTOU ALÉM
Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
Para não chegar tarde

Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão

Vou continuar a procurar
A quem eu me quero dar
Porque até aqui eu só
Quero quem quem eu nunca vi

Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi

Esta insatisfação
Não consigo compreender
Há sempre esta sensação
Que estou a perder

Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
Pra outro lugar

Vou continuar a procurar
O meu mundo
O meu lugar
Porque até aqui eu só

Estou bem aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou

Esta insatisfação
Não consigo compreender
Há sempre esta sensação
Que estou a perder

Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
Pra outro lugar

Vou continuar a procurar
A minha forma
O meu lugar
Porque até aqui eu só

Estou bem aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou.

Mulheres & Poesias

Saiba mais:
https://www.instagram.com/mulheres.e.poesias/
https://linktr.ee/Mulheres.e.poesias

Onde encontrar a Antologia:
Antologia “Eu, Ela, Nós Mulheres” pela Bibliomundi, no Google Books
Antologia “Eu, Ela, Nós Mulheres” na KOBO
Antologia “Eu, Ela, Nós Mulheres” na Editora Perse
Antologia “Eu, Ela, Nós Mulheres” no Clube de Autores
Antologia “Eu, Ela, Nós Mulheres” na Amazon
Antologia “Eu, Ela, Nós Mulheres” na agbook

As Horas

Olhou no relógio. Duas horas. Quatorze horas, ainda. O que fazer enquanto espera? Poderia comer, porque não almoçou ainda, mas só o pensamento nisso já dá náuseas. O que se pode fazer enquanto espera a morte, a sua, a de alguém, a de ninguém. A espera deixa um gosto estranho na boca, porque não se sabe o que fazer com ela. Então não devíamos esperar. Devíamos fazer outra coisa, pensar em outra coisa, mas a espera parece um pote de balas. Come a bala, diz que vai ser a última vez e aí quando vê já tem outra na boca. É o corpo falando que não vai se render e vai continuar esperando, mesmo que você não queira. A gata espera a comida ao lado do pote. Não mia, só se senta com os olhos atentos. O silêncio é quebrado pelos latidos dos cachorros vizinhos. Latidos, que não se ouve dentro da casa, que deveriam existir, mas não mais ali. A gata parece feliz. De novo o silêncio. Já se foram 24 minutos, mas podia ser uma hora. Duas horas e vinte e quatro minutos parece uma eternidade até as 15h30. Quinze e trinta, um número aleatório. Um é duas vezes o outro, quase cabalístico. Mentira! Não sei nem o que cabalístico quer dizer, mas acho bonito. Se fosse, diria que é a vontade de Deus. Mas arrisco a dizer que Ele nem pensa nisso. Ou pensa? Se sim, pode ser um teste de força e coragem. Soa tão bonito que poderia ser verdade. O que deveria fazer nesse momento? Sentar do lado dele e esperar? Ou escrever? Ou tomar banho? Ou comer? Náuseas. A cabeça lateja, não sei se da falta de comida ou pelo excesso de pensamentos que rondam. Por que pensamos? Podia comer, tomar banho, escrever e quando eles chegassem, estaria lá. Quase como se fosse uma simples atividade, como as outras. Mas seres humanos não são máquinas. Ou são? Ou poderiam ser? Ou vão se tornar um dia? Quatorze e trinta e sete. Quatorze ou catorze?

– Vou comer, aí espero.

Colocou a água para cozinhar um macarrão, não aqueles esticados, uma trouxinha. Quinze para as três. Não vai dar tempo. Ouve passos pela casa. Uma pontinha de esperança no coração. Foi no vizinho. Pingo! Pare quieto! Quase três horas. Faltam dez minutos. Parece que o tempo passa mais rápido agora. E queria que fosse devagar. Queria que não passasse. Porque podia ter aproveitado mais, podia ter deitado junto para esperar. Seria cedo? Seria certo? Certeza é uma palavra tão engraçada. Cer- te-za. Tezza. Preciso ler o livro. Faculdade. O macarrão já está fervendo.

Vejo você em Curitiba

Queria te ver por aí
Pedalando nas ruas de capacete
Correndo no Jardim Botânico
Tomando uma na Trajano.

Queria te ver
Explicando o que eu não sei
Distraído, sorrindo
Sendo você.

Queria ouvir você
falando da família
sobre os tios e tias
televisão e cozinha.

Queria mais de você
uma, duas, três doses
até me entorpecer.

Ainda te espero
Naquela promessa de sempre
Tomar uma cerveja artesanal
lá nos bares da Vicente.

Passageiros

Embarque e desembarque rápido de passageiros
De passageiros rápidos
De ligeiros passageiros
Que embarcam e desembarcam todos os dias.

Dos que passam e vão embora
Dos que vem e voltam para casa
De passagem numa vida inteira
E quando ficam a vida embola.

A vida embola entre as coisas
De maneira irrepreensível
Quando ficamos e queremos ir
Quando vamos e queremos ficar.

Que se passa entre as coisas vindas?
Nada que se possa controlar
Ir e vir, faz parte da vida.

Esse embarque e desembarque de passageiros.

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