Passageiros

Embarque e desembarque rápido de passageiros
De passageiros rápidos
De ligeiros passageiros
Que embarcam e desembarcam todos os dias.

Dos que passam e vão embora
Dos que vem e voltam para casa
De passagem numa vida inteira
E quando ficam a vida embola.

A vida embola entre as coisas
De maneira irrepreensível
Quando ficamos e queremos ir
Quando vamos e queremos ficar.

Que se passa entre as coisas vindas?
Nada que se possa controlar
Ir e vir, faz parte da vida.

Esse embarque e desembarque de passageiros.

Todos querem ser Paulo Leminski

De todos os artistas que eu conheci, Leminski era de quem eu mais fugia. Não que eu houvesse lido nada significativo, só os haicais, tão conhecidos, e ainda assim, de uma vez ou outra que me surgia. Preconceito puro sim, mas não com o artista, muito menos com os fãs reais da obra dele. Agora, o que me dá medo é aquela legião de pessoas que querem ser Paulo Leminski, que se apropriam de suas falas e até mesmo plagiam a sua genialidade. Também ficava receosa com os que falam mal. Não que um artista não possa ser criticado. Pode e deve! Com críticas reais e construtivas, não aquelas que tem, por debaixo das palavras bonitas, uma tentativa ínfima de destruir a genialidade do artista. Muito menos as ardilosas, que o autor devia era fazer uma terapia.

Acontece que, certo dia, estava eu aqui passeando pela minha reduzida biblioteca pessoal e me deparei com um livro dele: “Paulo Leminski — Ensaios e Anseios Crípticos”. Era de uma coleção do Polo Editorial do Paraná, que ganhei não lembro exatamente de quem e nem em qual circunstância. A descrição dizia “aqui está o melhor do seu pensamento”. Li as primeiras páginas como quem experimenta um alimento diferente pela primeira vez. Com aquela desconfiança que os curitibanos têm com o mundo que o cerca e, especialmente com outros curitibanos.

“A escrita vai ocupar um lugar, um tempo e um espaço cada vez maiores”. Ele disse em determinado momento. Poxa, Leminski, quem me dera o futuro fosse assim como seus olhos enxergavam. Mas a realidade do futuro é: escuto todos os dias que devia escrever menos, que devia fazer textos menores, porque, sejamos francos, ninguém lê. Textos pílulas, que seriam doses diárias para quem quer dizer que leu alguma coisa. Os avisos são de pessoas preocupadas, mas desavisadas de que o que motiva um escritor é escrever. Não sabem que, por melhor que sejam as intenções, são facadas na alma. Despedaçam corações que batem com palavras.

“Muito significativo que a leitura já comece sob o signo da morte”. Muito significativo mesmo, Paulo, obrigada. Em tempos em que os jornais estão morrendo, enquanto plantam bananeiras e fazem piruetas para manter o leitor interessado, em meio a expressões soltas para aumentar o ranqueamento no Google. Ah, Leminski, com a sua genialidade você talvez inventasse um jeito leminskiano de passar com sua prancha de palavras por essa onda de morte anunciada.

Pessoalmente, acho que o problema está na mania de achar que podem enfiar textos goela abaixo. Um resquício da escola em que todo mundo era ensinado que ler é chato. Onde os clássicos são recomendados como remédios salva-vidas. Onde se esquece que a justa medida da leitura é aquela que vai se crescendo aos poucos como escada. Muito me preocupa uma sociedade que não conhece o prazer de ler. Esse prazer que é um respiro em um mundo consumista que corre contra o relógio. Leitura não é remédio. É um alimento que cabe a cada um achar o que lhe apetece. Junk food ou saudável? Carnívora ou vegetariana? Gordurosa ou light?

A verdade é que ninguém chega ao mundo comendo caviar. E, caro leitor, verdade seja dita. Se em algum momento o texto não lhe prendeu, não lhe instigou, não lhe deu resquícios de continuar, não leia. Feche o livro, a página, o site e abra outro em seguida. O jogo escritor-leitor é justamente esse. Uma dança, uma conquista romântica, um swing de interesses. Não deu match? Siga em frente. E de vez em quando, volte aos clássicos, não por obrigação, por curiosidade mesmo. Rebeldia. No jogo de desafiar Leminski, Lobato, Verissimo, Lispector, Hist, Fagundes Telles, Meireles, Woolf, Austen, Baudelaire, Dostoiévski, Bradbury.

Enquanto escrevia esse texto, a ortografia me dizia que Leminski estava errado. A solução? Adicionei no dicionário.

O Bolo

Ele estava online e não me respondeu. Meu coração foi na boca. Um tremelique tomou conta do corpo e eu tive uma dor de barriga imediata. Doeu. Aquilo realmente estava acontecendo. Ele estava me dando um bolo. Quando escrevi não, ele me ligou. Falou que queria me ver e eu disse que esperaria ele.
Meu coração batia forte e vazio. Meu peito doía tanto que nem sei. Fiquei me perguntando a máxima: “e se eu tivesse feito diferente”. E o problema era que fazer diferente não garantia um resultado diferente.
O melhor era encarar a verdade. Era aquilo e pronto. Era mesmo um bolo. Um perdido. Ele estava me trocando. Joguei no Google, o que fazer quando a gente recebe um perdido. Nada de útil. O que fazer quando ele te dá um bolo. Alguma psicóloga escreveu: não dê um salto por quem não dá um passo por você.
Aquilo doeu.
Mandei mensagem, não respondeu. Eu liguei. Meu Deus, que louca eu pensava. Sou dessas que vão atrás. Eu só queria mesmo ter certeza. Ele não atendeu.
Depois de uns 15 minutos me respondeu dizendo que não ia dar e que ele iria para casa.
Enquanto alguém lá dentro gritava que era mentira, que é isso que as pessoas fazem quando dão perdidos. Outro alguém se perguntava se era tudo paranoia. Corri pesquisar no Instagram se era verdade. Não achei resposta mas me senti uma louca. De novo.
O tempo passava rápido e devagar.
A habilidade que aquele cara tinha de mexer comigo em tão pouco tempo me assustou. Será que a gente não deve se envolver?
Será que existe um cara certo?
E a pior pergunta da noite: Será que o problema sou eu?
E aí é daquelas noites em que você dorme com o coração partido.

Poetisas revelam a força da mulher em antologia

Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, dez poetisas independentes se reuniram para montar uma antologia poética. “Eu, ela, nós mulheres” nasceu do empoderamento feminino e busca contribuir dessa mesma forma. As artistas são de diversas cidades tanto do Brasil, quanto de Portugal. O lançamento aconteceu no dia 08 de março de 2020, pelo site da Amazon, mas já está disponível em outras plataformas.

As realidades de São Paulo, Catalão, Curitiba, Belo Horizonte, Campinas, Rio de Janeiro, Coimbra e Lisboa se misturam em uma deliciosa leitura e reflexão sobre a mulher. É através dos olhares de Amanda Chagas, Ana Ferreira, Daniela Farah, Ilma Pereira, Luanna Jardim, Maria Teresa, Mónica Brandão, Rosângela Martins, Safira Rúbia e Susana Geadas que o leitor percebe a natureza feminina e suas questões. A capa foi pensada de forma a realçar a diversidade das mulheres que fazem parte do projeto, mas também do mundo que nos cerca. 

“Como resultado, enquanto a mulher escritora se torna praticamente transparente ao refletir todas estas características das várias faces femininas em seus poemas, a mulher leitora se visualiza em cada verso; enxerga seus anseios, seus posicionamentos, seus sentimentos e seus pensamentos. Algumas vezes de forma firme e corajosa, em outras, assumindo a sua fragilidade e as suas frustrações. Assim, escritoras e leitoras buscam cada qual o seu espaço e o seu papel na família e na sociedade, indo até onde seus desejos sejam capazes de as levar.”

Você pode encontrar a obra “Eu, ela, nós mulheres”  nas seguintes plataformas:

Amazon

PerSe

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Diamante

A significância dá parte
àquela que parte
em mil peças
E de todas elas tira
o pó e a sujeira
E de polir esses
pedaços,
corta os dedos e
cria calos.

Até que eles brilhem.
Não há sentido em
nenhum pedaço sozinho
mas na imensidão
que reluz de sua
(superfície polida.)
alma que se vê pela superfície
limpa e polida.

Loucura e sensatez

A lembrança de você tem estado cada vez mais apagada. Mais como um sonho ruim do que algo que foi bom. Porque talvez o bom tenha sido fruto da fértil imaginação. Minha mente distorcida que cria histórias e fez mais um refém. Como o faz todas as vezes que tenho medo que a realidade seja um manto sombrio sobre os meus pensamentos. Agora a verdade teima em aparecer por sob meus olhos, mas não como um carrasco que proclama o fim dos dias. É uma luz no fim do túnel que tem seu nome na porta. O farol brilhoso impedindo os barcos de se perderem. A verdade me chega hoje como um amigo, que traz uma coberta e um chocolate quente. Você não precisa mais passar frio, ele me diz estendendo a mão cordialmente.

Enquanto divago, pareço sensata aos olhos de quem me é desconhecido. Curioso saber que a minha loucura é vista como lucidez. E afinal, quem é que está certo?

Por certo que eles imaginam que cada linha de pensamento é tida como uma lapidação de diamante. A verdade é que me vejo carbono, que desenha e escreve por entre as folhas no caminho.

Enquanto caminho na tênue linha de mim mesma, oscilando pelas vertentes que a minha personalidade tem produzido. Ora inteligente e burra. Bonita e feia. Luz e sombra. Loucura e sensatez.

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