IRON MAIDEN – POWERSLAVE (1984)

Powerslave foi o quinto álbum de estúdio gravado pelo Iron Maiden. Eles já haviam lançado o homônimo Iron Maiden em 1980, o Killers em 1981, The Number of The Beast em 1982 e o Piece of Mind em 1983. Powerslave veio com certeza para reforçar o lugar de honra que o Iron Maiden tem na história do metal. Depois de “Aces High”, “Rime of the Ancient Mariner” e a que dá nome ao álbum, não dava mais para dizer que Iron Maiden só tinha temas satânicos em suas letras. Fama que eles ganharam após o lançamento de “The Number of The Beast”, erroneamente, diga-se de passagem. A revista Rolling Stone, no ano de 2017, considerou Powerslave como o 38° melhor álbum de metal de todos os tempos.

O quinto álbum do Iron Maiden foi produzido em março de 1984 por Martin Birch e gravado no Compass Point Studios, em Nassau nas Bahamas. A mixagem foi feita em Nova York, no Electric Lady Studios. Powerslave foi lançado em 03 de setembro de 1984. Em 13 de outubro de 1984, ele entrou em 21° para a lista da Billboard e ficou lá por 34 semanas.

Powerslave – Lado A

O álbum conta com 8 músicas. Quem abre a ordem do Lado A é “Aces High”, um clássico. Imagine você lá por 1985 colocando Powerslave na vitrola e escutando os 20 primeiros segundos que sugestionam uma preparação para a guerra de uma maneira tão inovadora que só o Maiden era capaz de produzir. Lá pelos 40 segundos o volume já está no máximo e você automaticamente levanta e balança a cabeça ao som da voz do Bruce. E quando você pensa que “ah, a próxima música não vai ser tão boa assim”, começa a guitarra em “2 Minutes to Midnight”. Mesmo que inglês não seja o seu forte, o refrão não vai sair da sua cabeça jamais! (Aliás, aposto que você leu o título da música cantando, dando aquela pausa depois do 2). Não foi a toa que essas duas músicas foram lançadas como singles.

“Losfer Words (Big ‘Orra)” é uma faixa instrumental. Sem palavras, né? Exatamente isso! “Flash of The Blade”, “you´ll die as you lived/In the flash of a blade/In a corner forgotten by no one” (Você vai morrer como viveu, no brilho de uma lâmina, em um canto esquecido por todo mundo). Um minuto de silêncio por todos aqueles que morreram nas grandes batalhas com espadas. Não, pera. Quatro minutos! E na mesma onda vem “The Duellists”, que faz você se sentir quase que em Age of Empires.

Powerslave – Lado B

“Back in the Village” abre o Lado B. Depois da pausa básica para virar o disco de lado, a intro dela tem um que diferente e uma pegada de blues, country, ou o quê que quer que seja isso. Mas só nos primeiros 20 segundos. Bruce entra com sua voz inegável e, cara, que voz! A música que dá nome ao álbum é uma das últimas. “Powerslave” não dá só o nome mas traz toda a temática e a ligação com a mitologia egípcia. “Tell me why I had to be a Powerslave/ I don’t wanna die, I’m a God,/ why can’t I live on?” (Me diga porque eu tenho que ser um escravo do poder/ Eu não quero morrer, eu sou um Deus/ Por que não posso continuar vivo?) Aqui cabe um ponto em falar sobre a questão da Arte. As obras de arte que são consideradas relevantes discutem um âmbito maior do que ela em si. E “Powerslave” é exatamente isso. Ela discute com maestria a questão de que um Faraó, considerado um Deus na Terra, é um escravo do poder da morte. É que é tanta coisa para se prestar atenção nessa música que caberia uma matéria só para analisar toda a simbologia. Quem fecha o álbum é a icônica “Rime of the Ancient Mariner”. Durante muito tempo foi uma das mais longas músicas do Iron Maiden, com 13 minutos. Mas, claro, ela é mais do que isso. A ligação dela aqui vai com a literatura. Ela é inspirada no poema de Samuel Taylor Coleridge, considerado o marco do início da literatura romântica na Inglaterra.

Faixas

  1. Aces High 04:29
  2. 2 Minutes to Midnight 05:59
  3. Losfer Words (Big ‘Orra) 04:12
  4. Flash of the Blade 04:02
  5. The Duellists 06:06
  6. Back in the Village 05:20
  7. Powerslave 06:47
  8. Rime of the Ancient Mariner 13:36

Formação:
Bruce Dickinson – vocal
Adrian Smith – guitarra
Dave Murray – guitarra
Steve Harris – baixo
Nicko McBrain – bateria

Por ainda ser um álbum relevante depois de 30 anos da sua criação e se manter completamente atemporal, com o bônus de mesclar mitologia, história, literatura e música, merece um 10 bem redondo!

*publicado originalmente em 13 de julho de 2018, na Roadie Metal.

SABATON – CAROLUS REX (2012)

O Sabaton tem como um de suas características principais trazer a história para sua música. O contexto de sua criação artística trabalha acontecimentos reais e seus desdobramentos para sua obra. Carolus Rex não poderia ser diferente. O cenário é a Suécia, terra natal do Sabaton. A conjuntura histórica desse álbum fala dos eventos ocorridos entre a Guerra dos Trinta Anos e a Grande Guerra do Norte, tais como A Batalha de Breitenfeld (1631), A Batalha de Praga (1648), e a derrota do exército sueco frente as tropas russas, em A Batalha de Poltava.

O nome do álbum Carolus Rex tem relação com o rei Karl XII ou Carlos XII que governou a Suécia de 1697 até 1718. Ele tinha a ideia de que seu país era uma grande potência e fez o que podia para se tornar assim. Se formos comparar com outras formas artísticas, pode ser considerado quase que uma “ode” ao império sueco que se formou nesse período, desde sua ascensão até a queda, com a morte do monarca.

O sexto álbum da banda foi lançado no dia 25 de maio de 2012 pela Nuclear Blast Records. No dia 30 de novembro de 2018 será lançada edição limitada de platina de “Carolus Rex”. A data foi escolhida para homenagear os 300 anos da morte do rei. “Para comemorar, estaremos lançando uma série de edições limitadas deste álbum em 30 de novembro – precisamente 300 anos a partir do dia em que o Rei Carlos morreu e o Império Sueco terminou.”, a banda escreveu em seu Twitter.

O grande ponto aqui que ilumina esse álbum para um contexto artístico extremamente interessante é o fato de não apenas narrar a história, mas trazer o pensar sobre ela. A quarta música do álbum, “A Lifetime of War” fala da miséria causada pela Guerra dos Trinta Anos, trazendo tanto o lado inglês, na versão inglesa, quanto o sueco, na versão sueca. Como o nome já diz “uma vida inteira de guerra”, e como sobreviver nesse meio tempo? “Has man gone insane/A few will remain” (“Será que o homem enlouqueceu?/Poucos permanecerão”). Um questionamento que sobreviveu o período da guerra e pode ser utilizado até os dias de hoje.

A primeira capa é a versão sueca e a segunda, a inglesa.
Tracklist:

  1. Dominium Maris Baltici
  2. The Lion From The North
  3. Gott Mit Uns
  4. A Lifetime Of War
  5. 1648
  6. The Carolean’s Prayer
  7. Carolus Rex
  8. Killing Ground
  9. Poltava
  10. Long Live The King
  11. Ruina Imperii
  12. In The Army Now (Status Quo Cover)

Formação:
Joakim Broden– Vocal
Rikard Sunden– Guitarra
Oskar Monetlius– Guitarra
Par Sundstrom– Baixo
Daniel Mullback– Bateria
Daniel Myhr– Teclado

*publicado originalmente em 29 de setembro de 2018, na Roadie Metal.

SCORPIONS – HUMANITY – HOUR I (2007)

É difícil agradar a gregos e troianos, especialmente no mundo musical, mas “Humanity – Hour I” tem todos os elementos necessários para angariar esse posto. O primeiro álbum conceitual do Scorpions consegue transpassar algumas barreiras musicais sem perder a essência que caracteriza a banda. Pouquíssimas bandas conseguem a fórmula perfeita de se arriscar sem se perder no caminho e “Humanity – Hour I” é a prova de que isso é possível.

Claro que é importante se atentar ao conceito que todo tem ou deveria ter no seu processo de criação. O décimo sexto álbum da banda foi produzido por Desmond Child e James Michael. A temática é sobre um futuro caótico que tem como responsável a guerra civil entre homens e máquinas. A preocupação com os avanços da tecnologia estava em alta na época, e se tornou contínua ao longo dos anos. Portanto, a ideia de trabalhar com esse assunto foi excelente e a produção se tornou impecável. O responsável pela visão futurista e caótica de um mundo das máquinas foi Desmond.

“Humanity Hour I” tem 12 faixas e teve suas gravações realizadas de outubro de 2006 a fevereiro de 2007. Foi lançado em 14 de maio na Europa, 20 de junho no Japão e em 28 de agosto no Canadá e nos Estados Unidos.

A voz robotizada contrasta com as batidas quase em estilo ritualístico, e a guitarra pesada que se segue, com o que seria uma sirene de fundo não denuncia que você está diante de um álbum do Scorpions. Isso porque “Hour I” começa pesada para o que a banda costumava apresentar. O vocal de Klaus Meine, sempre tão carregado emocionalmente, soa frio, dentro do considerado para o alemão. A letra de “Hour I”, que dá nome ao álbum, é catastrófica e fala sobre uma sociedade dominada pelas máquinas, como a ruína dos seres humanos. Os anos 2000 trouxeram essa preocupação intensa em relação à Inteligência Artificial ser algo perigoso e ameaçador. “Human nature is the reason/ For our downfall / And we deserve it playing God / With our machine”. (A natureza humana é a razão/ Para a nossa ruína / E nós merecemos isso, brincando de Deus / Com nossas máquinas.)

“The Game of Life” começa com uma batida característica de hard rock e que traz um certo conforto sonoro de quem pegou um álbum do Scorpions para ouvir. O peso que caracteriza o álbum está em todo o “Humanity – Hour I”, mas você consegue respirar sem se preocupar se a banda mudou tanto assim sua identidade musical. A voz de Klaus soa emocional novamente, os solos a lá anos 80 acalentam os ouvidos e quando você se dá conta está cantando o refrão dançante: “In the game of life/The strong survive/We’re on a one-way street/We gotta make it out alive/And never let ‘em drag us down.” (No jogo da vida/O forte sobrevive/Estamos em uma rua de mão única/Precisamos dar vida a isto/E jamais deixar nos arrastarem para baixo)

Claro que “The Game of Life” foi criada junto ao conceito futurista do álbum, mas fica muito claro o fato de que ela pode ser ouvida a qualquer tempo, porque se encaixa no contexto, porém vai mais além, fala do “jogo da vida”, sobrevivência em sociedade. “Here comes the morning/It’s time to play/The game of life”. (Lá vem a manhã/É hora de jogar/O jogo da vida)

A terceira música do álbum traz um clima sombrio, com riffs arrastados apesar da bateria enérgica. O tema principal de “We Were Born To Fly” é a solidão e a necessidade de se agarrar a alguém que mantenha a sua fé. Nascemos para voar, mas estamos presos é o que fica claro logo no início da música. “Hello again/You’ve been alone awhile/And I can use a friend/Your shades are down/And I’ve been waiting here for you to come around”. (Olá, novamente/Você esteve sozinho por um tempo/E eu posso ser um amigo/Suas sombras estão caídas/E eu estive aqui esperando você voltar)

Desde que o mundo é mundo a arte, de modo geral, utiliza-se do amor como um elemento de esperança para tempos caóticos. No caso de “Humanity – Hour I” isso é visto com mais intensidade em outras músicas, porém é possível ver um relance disso nessa letra. “And it’s not about forgiveness/Cause it’s all about the love anyhow”. (“E isso não é sobre perdão/Porque é tudo sobre o amor, de qualquer modo”)

Reza a lenda que este álbum estava muito pesado e que foi preciso incluir algumas músicas que transmitiam esperança. “The Future Never Dies” é uma delas. O clima sombrio e desesperançoso de “We Were Born to Fly” perde espaço para uma melodia psicodélica de leve, a lá Pink Floyd. Essa música traz uma mistura de melancolia com esperança, Floyd com as baladas tradicionais do Scorpions. A letra fala de um possível futuro “We´re alive/ And the future never dies” (Nós estamos vivos/e o futuro nunca morre), mas questiona o presente quando diz “So tell me why I´m alone/When we´re lying here together.” (Então me diga porquê eu estou sozinho/ Quando nós estamos deitados juntos)

O clima logo é quebrado pela “You’re Lovin’ Me To Death”, com um tom mais agressivo e pesado. A temática da música é o sofrimento de ter sido enganado, de certa forma. “You played me like a toy/ You made my life a mess” (Você me usou como um brinquedo/ Você fez da minha vida uma bagunça) O que faz todo o sentido se formos analisar o rumo lírico que as músicas vinham tomando. E será mesmo possível o amor sobreviver em uma sociedade caótica?

Sem palavras para “321”.

E logo quando você se pergunta se não tem aquela balada romântica a lá Scorpions mesmo, aparece “Love Will Keep Us Alive”. A batida dançante suave, o riff icônico de guitarra, perfeita para dançar a dois. Não tem como ouvir essa música e não se transportar para aquelas festas na casa de alguém, que todo mundo esperava uma música assim para apagar a luz e dançar juntinho. O clima romântico aqui é quebrado pela batida de um tambor de guerra disfarçado em “We Will Rise Again”. Quando você escuta “Your Last Song” e “Love is War” tem a ligeira impressão de já ter ouvido antes. “The Cross” contou com a participação de Billy Corgan nos vocais. Talvez seja pelo vocalista do Smashing Pumpkins, ou pelos riffs característicos, mas essa é a única música do álbum com cara de música dos anos 2000. “Humanity – Hour I” finaliza com “Humanity”. “Your fantasies and lies” (Suas fantasias e mentiras).

“Humanity – Hour I” pode ter uma ou duas músicas que não são das mais aplaudidas, mas ganha um dez aqui pelo conjunto da obra. O conceito artístico fica claro para os mais atentos. Para quem só gosta de ouvir as músicas, sem analisar todo o contexto criativo, também. “Humanity – Hour I” agrada sim, a gregos e troianos, que sejam fãs de Scorpions ou que tenham respeito pelo conteúdo de excelente qualidade, produzido aqui.

Tracklist:

  1. Hour I
  2. The Game Of Life
  3. We Were Born To Fly
  4. The Future Never Dies
  5. You’re Lovin’ Me To Death
  6. 321
  7. Love Will Keep Us Alive
  8. We Will Rise Again
  9. Your Last Song
  10. Love Is War
  11. The Cross
  12. Humanity

Formação:
Klaus Meine – Vocal
Matthias Jabs – Guitarra
Rudolf Schenker – Guitarra
Pawel Macioda – baixo
James Kottak – bateria

*publicado originalmente em 25 de outubro de 2018, na Roadie Metal.

FOO FIGHTERS – FOO FIGHTERS (1995)

“Foo Fighters” (1995) é o álbum que marca a estreia da banda liderada por Dave Grohl. Ele foi lançado em 04 de julho de 1995, data da comemoração da independência dos Estados Unidos.

Na semana de 17 de outubro à 23 de outubro de 1994, Dave ficou no Robert Lang Studios, em Seattle, gravando uma fita cassete praticamente sozinho. Barret Jones fez a produção e Greg Dulli tocou guitarra em uma música. Logo na primeira página do site do estúdio, tem uma declaração do vocalista: “O estúdio que mudou minha vida para sempre. Eu não seria eu sem você.” A verdade é que foi mais uma experiência catártica. Dave Grohl tinha pensado em largar a música após a morte do amigo e companheiro de banda, Kurt Cobain. Em vez disso, o ex baterista do Nirvana se refugiou na arte e assim nasceu o Foo Fighters.

“Eu decidi pegar as músicas favoritas que fiz nos últimos quatro ou cinco anos que ninguém tinha ouvido e as gravaria num estúdio na rua da minha casa. E foi animador porque eu fazia completamente sozinho. Eu não sabia por que estava fazendo aquilo. Eu só queria fazer algo, sabe? Então eu marquei uma semana no estúdio e, no fim da semana, tinha uma fita e soava bom.”, disse Grohl no documentário Foo Fighters: Back and Forth, dirigido por James Moll.

Para o nome, o grande fã de ufologia e aliens escolheu um que remete a uma experiência da Segunda Guerra Mundial. “Foo fighter” é uma expressão inglesa que define esferas luminosas alaranjadas que acompanhavam os pilotos americanos enquanto sobrevoavam a Europa. O vocalista já disse em entrevistas que gosta da sonoridade do termo. Ainda no documentário, ele fala sobre a decisão de colocar outro nome: “Então comecei a pensar ‘ eu não vou colocar meu nome nisso. As pessoas vão pensar que é só uma banda. E não vão saber que é daquele cara do Nirvana.”

A questão é que a repercussão da fita foi muito boa e Dave se viu na incumbência de montar uma banda para os shows. Após assistir a última apresentação da banda Sunny Day Real Estate, ele resolveu convidar o baixista Nate Mendel e o baterista William Goldsmith, para se juntar ao Foo Fighters. Pat Smear, guitarrista do Germs e auxiliar nas turnês do Nirvana, completou a gangue.

Nesse processo, Grohl foi extensamente criticado por ter começado uma banda nova e essencialmente pela capa do novo álbum. Como Kurt Cobain foi encontrado morto com um tiro na cabeça, algumas pessoas acharam insensível da parte de Dave ter uma arma na capa. “Sim, as pessoas se assustaram com isso”, disse em entrevista ao Louder. “Sabe, honestamente, isso nunca me veio à mente uma vez. Obviamente não, porque se eu pensasse que as pessoas associariam isso com isso, eu nunca teria feito isso.”, continuou. Isso porque foi o amor pela ficção científica que o levou a escolher a foto da arma de brinquedo Buck Rogers. A foto foi tirada por Jennifer Youngblood, na época esposa de Grohl.

“This is a Call” é a música que abre o álbum. É uma das poucas que foi escrita após o Nirvana. É até uma injustiça ficar retomando esse fato, porque Dave fez o que achou melhor para o momento, mas o comentário aqui é mais pela questão histórica do que qualquer comparação. Foi também o primeiro single lançado em 19 de junho de 1995. Musicalmente, a história pessoal do baterista é marcada por rock clássico e punk rock, portanto, em sua produção isso não poderia ficar de fora. “This is a Call” tem uma pegada de revolta, mas com a ideia feliz. A letra “Isto é um chamado para todas as minhas/ Renúncias passadas” é um jeito poético de começar um projeto novo, tendo toda uma espécie de responsabilidade nas costas. Afinal, se já é difícil recomeçar na vida fora dos holofotes, imagine com a mídia e fãs em cima? Mas ele se saiu muito bem.

Em “I´ll Stick Around”, as influências da época do Nirvana ficam bem claras. Mas Kurt provavelmente deixaria o vocal mais melódico e lento, exceto no refrão. “I don’t owe you anything” (Eu não devo nada a você). É mais do que compreensível que Grohl levasse a diante a bagagem de sua banda anterior, ainda mais nesse primeiro momento.

É possível ver referências claras do futuro do Foo Fighters em “Big Me” por dois motivos. Um deles é a sonoridade que varia entre “This is a Call” e “Big Me”. Outra razão foi o clipe “humorístico” que eles produziram, imitando uma propaganda de bala. A letra tem inspirações amorosas: “When I talked about it/Carried on/Reasons only knew/But it’s you I fell into” (Quando eu falei sobre isso/Leva a coisas que/Só as razões conheciam/Mas isto é você, eu cai nas suas mãos).

“Alone + Easy Target” não é das mais surpreendentes, é do tipo que você tem certeza que já ouviu antes. Já “Good Grief” tem um ritmo interessante, mas peca no vocal. Em alguns momentos ele fica quase inaudível e você sabe que Grohl ainda não está preparado para cantar ela. Mas deve ter funcionado muito bem nos shows, porque tem uma pegada contagiante. “Floaty” é provavelmente a mais experimental do álbum e talvez por isso Dave tenha se dito tão inseguro vocalmente ao gravá-la. Ela começa com um violão acústico que te remete à calmaria de um campo, mas altera ao longo do tempo. Perto dos 30 segundos ganha uma guitarra com um certo peso, que logo é substituída por vocais que dão a sensação de flutuação.

“Weenie Beenie“é uma das mais pesadas do álbum e mostra suas influências punk, especialmente da época em que tocava no Scream. A vantagem de analisar um álbum 24 anos depois de seu lançamento é poder observar por qual caminho a banda seguiu. “Oh, George” tem características que vão acompanhar o Foo Fighters ao longo dos anos e podia ter sido melhor aproveitada na divulgação da banda.

Uma piada diz que todo baterista tem mania de querer colocar qualquer coisa de jazz nas músicas. “For All the Cows” segue essa linha e é uma das poucas letras que brinca com significado das coisas. “My kind has all run out,/As if kinds could blend./Some time if time allows,/Everything worn in, everything worn in,/Everything worn in like it’s a friend.” (Minha espécie está toda extinta./Como se espécies pudessem se misturar./Com o tempo, se o tempo permitir/Tudo se desgasta, tudo se desgasta./Tudo se desgasta como se fosse um amigo.)

A música que tem a única participação do álbum é a “X-Static”. O primeiro minuto da música é todo instrumental. Dá a impressão de que, justamente por ter uma parceria de peso na guitarra, Grohl pode carregar na bateria. “Wattershed” é uma pérola na casca. “Exhausted.”

Dave Grohl entrou no estúdio depois de quase desistir da música. Foo Fighters nasceu como um trabalho de catarse, mas já com identidade própria.

Tracklist:
1.”This Is a Call”
2.”I’ll Stick Around”
3.”Big Me”
4.”Alone + Easy Target”
5.”Good Grief”
6.”Floaty”
7.”Weenie Beenie”
8.”Oh, George”
9.”For All the Cows”
10.”X-Static”
11.”Wattershed”
12.”Exhausted”

Banda:
Dave Grohl – vocal, guitarra, baixo, bateria
Greg Dulli – guitarra em “X-Static”
Barret Jones – Produção

*publicada originalmente em 7 de janeiro de 2019, na Roadie Metal.

O croissant

Eu tinha viajado a noite toda, só algumas balinhas no estômago. Até hoje se fechar os olhos, sinto o gosto de lavanda. Se fosse para identificar um país pelo sabor, a França com certeza teria esse, e também de mar salgado. As águas geladas de Nice são lindas demais para não levar na memória. Logo após cruzar a fronteira, o ônibus parou. Tudo estava muito escuro e o carro muito largo para aquela estrada. Da janela era possível ver somente o buraco negro que cercava tudo. O motorista deu ré e fez uma manobra perigosa às três da manhã no pé de um morro. Pegou o caminho errado e estava subindo a montanha. Se eu morrer aqui, morro feliz. Nunca senti tanta paz em relação com a morte quanto naquele momento. Ainda que fosse um acidente horrível, tudo parecia fazer sentido. Bom, se eu estou aqui contando essa história você já sabe que nada aconteceu. O ônibus conseguiu fazer a volta quase que como por milagre e seguimos caminho.

A cada luz da manhã que se aproximava era possível ver o branco nas montanhas. Foto nenhuma faz jus a beleza da aura azul envolvendo tudo. Eu não sei dizer se realmente tudo estava encoberto pela névoa e a única coisa que se destacava era a montanha ou se era porque a sua beleza ofuscava o resto. A verdade é que o branco realmente se destacava no azul-escuro dos primeiros raios da madrugada. Por volta das seis da manhã chegamos no estacionamento e eles estavam me esperando. Meus tios estavam visivelmente atrasados para o trabalho e pegamos a estrada na sequência.

Fiquei pensando que os suíços têm carros bons por necessidade mesmo. Depois descobri que você consegue andar a cidade toda a pé, se quiser. Pequenas cidades que se conectam pela rodovia. E lá estávamos nós, num lugar que até hoje não sei pronunciar. Um vilarejo com dois mercados e um centro comercial que lembra muito a ágora. Não que eu já tenha estado em uma, mas a praça no meio com a prefeitura, o correio e outros negócios importantes em volta me deram essa impressão.

Depois de me instalarem, eles foram trabalhar. Eu fiquei com o Jonny, um urso branco em forma de cachorro simpático e o pequeno briguento pinscher que depois de um dia sumiu com a minha meia. Todo o cansaço das mais de seis horas de viagem bateu forte e eu dormi por horas. Eu estava só com as balinhas de lavanda no estômago e, portanto, morrendo de fome. Quando entrei na cozinha vi um pacote que estava separado. Meu tio tinha comprado um croissant para o café da manhã. Uma mistura perfeita de leite, ovo, manteiga e maciez que desceu como se fosse carregado por nuvens pela minha garganta. Foi a coisa mais gostosa que eu tinha comido em dias. Eu sempre fui do time do pão francês, mas aquele croissant me arrebatou como um prêmio. Comida costuma acalmar meu coração e eu nunca tinha sentido uma paz como aquela. Perfeição. Todos os sabores eram individuais e ainda assim misturados.

Sei o que vocês estão pensando, eu também estive nesse lugar. O sabor foi efeito da fome e da viagem, nem devia ser tão bom assim. Era. Os dias se seguiram com gosto de família e uma certa monotonia melancólica que só um vilarejo proporciona. Nunca tinha estado num lugar assim. As pessoas eram muito educadas, ainda que eu não entendesse uma só palavra. A estação tinha acentuado as flores e o sol era fresco durante o dia. Eu aproveitei para passear com os cachorros e assim meu tio podia descansar no horário de almoço. Minha tia e prima só chegavam no fim do dia. Em um dia de folga elas me levaram para passear nos lugares lindos em volta. E foi aí que eu encontrei com ele de volta. “Meu amor, aqui tem aquele croissant que você gostou tanto”, o tom carinhoso de minha tia foi quebrado pelo meu espanto. Um posto? Na minha imaginação aquele pedaço de céu tinha visto de uma padaria artesanal que tinha uma vaca no quintal. Naquele momento tive certeza que o sabor do croissant tinha vindo da alucinação causada pelo cansaço da viagem. Não era possível.

Ela voltou com saquinhos de papel, um para cada. A descoberta tinha matado minhas esperanças de ter de volta a harmonia, a paz de uma comida perfeita. Descrente, dei a primeira mordida, parecendo mais um crítico que busca o erro. Ali estavam o leite, o ovo, a manteiga e maciez. Perfeição. A simplicidade dos elementos em tamanha harmonia trouxeram paz. Os dias naquele país de língua tão estranha passaram rápido. Embarquei numa manhã ensolarada rumo à Itália. Dessa vez a paisagem me acompanhou durante quatro horas, com o azul brilhante do lago e me despedi da montanha do cartão postal.

Morada

Em ti fiz minha morada descabida
Por entre os sorrisos e a firmeza de sua voz
assinei contratos, realizei viagens, cuidei dos gatos
Fiquei em teu olhar só de ida.

Mas a casa que eu construí não era tua
ainda que tivesse tuas palavras e teu cheiro
de gema mole em omeletes inteiros
e a porta feita sem entrada para a rua.

Assim, ficamos distantes
eu, presa no sonho sem porta
você, na realidade vazia
nunca mais amantes.

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