Categorias
Notas

As Horas

Olhou no relógio. Duas horas. Quatorze horas, ainda. O que fazer enquanto espera? Poderia comer, porque não almoçou ainda, mas só o pensamento nisso já dá náuseas. O que se pode fazer enquanto espera a morte, a sua, a de alguém, a de ninguém. A espera deixa um gosto estranho na boca, porque não se sabe o que fazer com ela. Então não devíamos esperar. Devíamos fazer outra coisa, pensar em outra coisa, mas a espera parece um pote de balas. Come a bala, diz que vai ser a última vez e aí quando vê já tem outra na boca. É o corpo falando que não vai se render e vai continuar esperando, mesmo que você não queira. A gata espera a comida ao lado do pote. Não mia, só se senta com os olhos atentos. O silêncio é quebrado pelos latidos dos cachorros vizinhos. Latidos, que não se ouve dentro da casa, que deveriam existir, mas não mais ali. A gata parece feliz. De novo o silêncio. Já se foram 24 minutos, mas podia ser uma hora. Duas horas e vinte e quatro minutos parece uma eternidade até as 15h30. Quinze e trinta, um número aleatório. Um é duas vezes o outro, quase cabalístico. Mentira! Não sei nem o que cabalístico quer dizer, mas acho bonito. Se fosse, diria que é a vontade de Deus. Mas arrisco a dizer que Ele nem pensa nisso. Ou pensa? Se sim, pode ser um teste de força e coragem. Soa tão bonito que poderia ser verdade. O que deveria fazer nesse momento? Sentar do lado dele e esperar? Ou escrever? Ou tomar banho? Ou comer? Náuseas. A cabeça lateja, não sei se da falta de comida ou pelo excesso de pensamentos que rondam. Por que pensamos? Podia comer, tomar banho, escrever e quando eles chegassem, estaria lá. Quase como se fosse uma simples atividade, como as outras. Mas seres humanos não são máquinas. Ou são? Ou poderiam ser? Ou vão se tornar um dia? Quatorze e trinta e sete. Quatorze ou catorze?

– Vou comer, aí espero.

Colocou a água para cozinhar um macarrão, não aqueles esticados, uma trouxinha. Quinze para as três. Não vai dar tempo. Ouve passos pela casa. Uma pontinha de esperança no coração. Foi no vizinho. Pingo! Pare quieto! Quase três horas. Faltam dez minutos. Parece que o tempo passa mais rápido agora. E queria que fosse devagar. Queria que não passasse. Porque podia ter aproveitado mais, podia ter deitado junto para esperar. Seria cedo? Seria certo? Certeza é uma palavra tão engraçada. Cer- te-za. Tezza. Preciso ler o livro. Faculdade. O macarrão já está fervendo.

Categorias
Notas

O Bolo

Ele estava online e não me respondeu. Meu coração foi na boca. Um tremelique tomou conta do corpo e eu tive uma dor de barriga imediata. Doeu. Aquilo realmente estava acontecendo. Ele estava me dando um bolo. Quando escrevi não, ele me ligou. Falou que queria me ver e eu disse que esperaria ele.
Meu coração batia forte e vazio. Meu peito doía tanto que nem sei. Fiquei me perguntando a máxima: “e se eu tivesse feito diferente”. E o problema era que fazer diferente não garantia um resultado diferente.
O melhor era encarar a verdade. Era aquilo e pronto. Era mesmo um bolo. Um perdido. Ele estava me trocando. Joguei no Google, o que fazer quando a gente recebe um perdido. Nada de útil. O que fazer quando ele te dá um bolo. Alguma psicóloga escreveu: não dê um salto por quem não dá um passo por você.
Aquilo doeu.
Mandei mensagem, não respondeu. Eu liguei. Meu Deus, que louca eu pensava. Sou dessas que vão atrás. Eu só queria mesmo ter certeza. Ele não atendeu.
Depois de uns 15 minutos me respondeu dizendo que não ia dar e que ele iria para casa.
Enquanto alguém lá dentro gritava que era mentira, que é isso que as pessoas fazem quando dão perdidos. Outro alguém se perguntava se era tudo paranoia. Corri pesquisar no Instagram se era verdade. Não achei resposta mas me senti uma louca. De novo.
O tempo passava rápido e devagar.
A habilidade que aquele cara tinha de mexer comigo em tão pouco tempo me assustou. Será que a gente não deve se envolver?
Será que existe um cara certo?
E a pior pergunta da noite: Será que o problema sou eu?
E aí é daquelas noites em que você dorme com o coração partido.

Categorias
Notas

Loucura e sensatez

A lembrança de você tem estado cada vez mais apagada. Mais como um sonho ruim do que algo que foi bom. Porque talvez o bom tenha sido fruto da fértil imaginação. Minha mente distorcida que cria histórias e fez mais um refém. Como o faz todas as vezes que tenho medo que a realidade seja um manto sombrio sobre os meus pensamentos. Agora a verdade teima em aparecer por sob meus olhos, mas não como um carrasco que proclama o fim dos dias. É uma luz no fim do túnel que tem seu nome na porta. O farol brilhoso impedindo os barcos de se perderem. A verdade me chega hoje como um amigo, que traz uma coberta e um chocolate quente. Você não precisa mais passar frio, ele me diz estendendo a mão cordialmente.

Enquanto divago, pareço sensata aos olhos de quem me é desconhecido. Curioso saber que a minha loucura é vista como lucidez. E afinal, quem é que está certo?

Por certo que eles imaginam que cada linha de pensamento é tida como uma lapidação de diamante. A verdade é que me vejo carbono, que desenha e escreve por entre as folhas no caminho.

Enquanto caminho na tênue linha de mim mesma, oscilando pelas vertentes que a minha personalidade tem produzido. Ora inteligente e burra. Bonita e feia. Luz e sombra. Loucura e sensatez.

Categorias
Notas

Minutos antes do fim do mundo

Ficamos deitados. Como se o mundo lá fora não existisse. Não sei dizer quantas horas se passaram no silêncio. Abraçados como se fossemos um. Porque no fundo sabíamos que a hora que eu saísse por aquela porta tudo se acabaria.

Deitamos abraçados no silêncio para aproveitar os últimos minutos em que se era possível acreditar no amor.

Como se desse para parar o tempo. Naquele instante o planeta parou de girar, e as coisas se tornaram lentas e demoradas.

Porque sabíamos que iríamos em frente.

Você pode amar outras pessoas, mas cada sentimento que se tem por alguém é único.

O que você tirou de mim, eu nunca mais tive de volta. E nem você.

Não é a capacidade de amar. Ou a falta dela. Ela existe. Só não funciona mais. Quase como se estivesse emperrada com a chave quebrada dentro.

Categorias
Notas

Obrigada, Amor

Obrigada, Amor. Você nunca foi como eu imaginei e a gente nunca se entendeu direito. Talvez pela minha infantilidade em acreditar nos contos de fada. Ou na minha ignorância por não te reconhecer. Não sei e não importa.

O que você me fez sentir transformou a minha vida. Hoje, e só hoje compreendo os paralelos que existem no Amor. Ainda engatinho nessa aprendizagem.

Você esteve comigo e nunca me deixou desistir. Por sua causa, eu sorri nos momentos mais improváveis e tive coragem para mudar.

Foi você, Amor, quem me fez compreender que eu posso ser tudo aquilo que eu acredito. E ainda não largou a minha mão quando a correnteza estava forte demais, para que eu não me perdesse.

Você nunca me deu tudo e a minha ingratidão me fez olhar para apenas para isso. O meu desejo consumista me fez ver aquilo que eu não tinha. A inveja me consumiu e eu desejei coisas que eu nem sabia.

E então, por não haver mais espaço em mim, você se foi.

Categorias
Notas

As janelas acesas

Às vezes nos colocamos a vã expectativa que amar alguém é suficiente. Que vai vir do outro a mágica necessária para dar graça à vida. Claro que se apaixonar é uma das melhores coisas do mundo. Claro que o sorrir sem querer sorrir é sinal de uma felicidade interna. Mas não cabe ao outro. Cabe em você.

Enquanto estou em mais uma insônia pensativa, em que milhares de coisas passam simultaneamente pela minha cabeça, olho pela janela.

A luz do último andar do prédio branco e preto que fica bem na minha frente se apaga. “Mais uma pessoa indo dormir enquanto eu fico acordada.”

Às vezes penso que o ato de pensar é extremamente solitário. Escrever é o que torna menos solitário. Talvez o ato de escrever as coisas é o que me torna mais humana. Sinto que escrever me torna mais acessível e também mais próxima da realidade. Escrever me faz sair do mundo que existe na minha cabeça. Aquele mundo tão próprio que pouca gente entende.

Enquanto estava deitada, tentando dormir em vão, minha mente tagalerava sobre o fato de que talvez seja difícil para qualquer pessoa do meu lado se aproximar.

Tem 19 luzes acesas nos prédios aqui em volta. 24 se eu esticar a cabeça um pouco mais. O que essas pessoas estariam fazendo acordadas às 03 horas da madrugada?

“Você fica inatingível quando está dentro de si mesma”, escutei uma vez. A verdade é que eu também me sinto presa dentro de mim mesma, às vezes. Um labirinto mental de ideias e pensamentos que me consomem.

E o amor, se ele existe, consistiria no outro me tirar do mundo solitário ou aceitar que de vez em quando eu fique perdida entre pensamentos?