Resenha: Deep Purple – Burn (1974)

Uma das coisas importantes a dizer de “Burn” é a comprovação de que Deep Purple continua com ou sem os integrantes. Não só continua, no sentido simples da palavra, mas consegue se reinventar de uma maneira criativa. O oitavo álbum marca a entrada de David Coverdale, no vocal e de Glenn Hughes, no baixo, ocupando os lugares livres com a saída de Ian Gillan e Roger Glover, respectivamente.

Burn foi lançado em 15 de fevereiro de 1974 e atingiu o top 10 da Billboard nos Estados Unidos e o top 5 no Reino Unido. Gravado apenas três meses antes, em Montreux, na Suíça, no Rolling Stones Mobile Studio, o álbum conta com oito gravações e mostra toda a repercussão sonora trazida pelos novos integrantes. Saliento aqui também o desafio que qualquer produção artística tem em cada próximo trabalho, exercitar a criatividade sem afetar o estilo, com um produto final original e de personalidade.

01 – Burn – 6:04

A primeira música do disco, que dá título ao álbum, mantém a estrutura dos hits de sucesso, iniciando com um riff marcante e poderoso, e a bateria veloz de Ian Paice. Por isso, sim, “Burn” é o hit de sucesso do álbum, e também a que mais se aproxima da sonoridade conhecida até então. Colocada na primeira posição, talvez para não assustar os fãs e só então mostrar as influências de blues, soul e até funk (funk music, people, não confundam!). Ela tem seis minutos, dos quais os cinco primeiros segundos são para a guitarra de Blackmore, com a entrada de Paice no sexto segundo e só então os outros instrumentos. Coverdale é apresentado lá por 00:20, cantando com força e voz pesada, e revela parte de sua potência vocal no refrão. “Earth was shakin’, we stood and stared” (A terra estava mexendo, nós estávamos de pé e olhamos), seria uma metáfora para aquele período? Se sim, “All I hear is, “burn!” (Tudo o que ouço é, “queimem!”) traduz toda a ação do álbum.

02 – Might Just Take Your Life – 4:36

A segunda música “Might Just Take Your Life” já inicia com uma leve, bem leve, influência do soul. Com pouco mais de 4 minutos e meio, Coverdale parece soar mais à vontade nos vocais, mas o destaque é de Jon Lord, que conseguiu transpassar um pouco da sua personalidade musical. Apesar de ter alguns elementos interessantes, o resultado final é como se cada um estivesse num quarto separado, o que poderia ser bom, mas no caso específico aqui faltou um fio de ligação que promovesse a harmonia entre os elementos. Mas a letra pode até ser considerada uma profecia para o Deep Purple “Old man shakin’ dice down on the street/ Try’n to make a livin’ somehow / But i’m really sure about gettin’ things sorted out / And i’m gettin’ ready right now.” (Um velho homem jogando dados pelas ruas/ Tentando sobreviver de alguma forma/ Mas estou realmente certo De que as coisas vão melhorar/ E estou me preparando neste exato instante). Como assim uma profecia? Bem, as coisas não estavam muito bem para a banda, visto que o último álbum não foi um grande sucesso de vendas. E sim, as coisas iriam melhorar depois de “Burn”. Além, também de um aviso bem sério de que nada pode parar o Deep Purple: “You can’t hold me,/ I have told you.” (Você não pode me segurar, / Eu te disse).

03 – Lay Down, Stay Down – 4:15

Na terceira faixa, “Lay Down, Stay Down”, tem quatro minutos e é uma surpresa boa. Depois da excelente “Burn” e a meia-boca “Might Just Take Your Life”, a terceira música é estrategicamente importante. É nela que se decide continuar ou não ouvindo o álbum. E pessoalmente foi uma das que eu mais gostei e vou dizer porquê. Não, ela não é uma música passível de se tornar um grande clássico, mas tem seu valor. Lord finalmente se destaca aqui, junto com Paice, Coverdale e Hughes. Sim, há uma unicidade, soa como se eles realmente estivessem ao mesmo tempo, fazendo a mesma coisa. Finalmente, há sincronia, e isso dá uma beleza à música. Coverdale e Hughes se complementam no vocal. O garboso solo de Blackmore lá pelos dois minutos e meio da música, transpõe a influência do blues, e deixa a música muito mais interessante. A letra não é um primor na questão de criatividade, mas soa muito poética na voz de Coverdale.

04 – Sail Away – 5:48

Excelente questionamento é feito na letra de “Sail Away”, quando diz “Tell me,where do i belong?” (Me diga, onde eu pertenço?). A quarta música segue a mesma linha de “Lay Down, Stay Down”, com uma boa qualidade, mas sem nada grandioso. Com quase seis minutos, “Sail Away” não precisa ser a música preferida de ninguém, mas agrega valor ao álbum. Ela traz uma certa psicodelia, que é um traço recorrente do Deep Purple. A guitarra de Blackmore conversa lindamente com o baixo de Hughes. O vocal de David Coverdale é um charme a parte. “Sail Away” tem um certo groove, mas sem perder as raízes do rock. Se a mistura ficou boa? Bem, “Time will show, / When, i don’t know.” (O tempo mostrará / Quando, eu não sei). Atenção especial ao solo de guitarra distorcida, trazendo efeito psicodélico lá pelos 03 minutos e 15 segundos. Mais uma música em que a sincronia reinou e demonstra uma parcela do potencial do que essa formação poderia trazer.

05 – You Fool No One – 4:47

“You Fool No One” é groove demais para Deep Purple. É possível compreender aqui a revolta que Blackmore teria nos próximos anos. “You fool no one, waiting to see if I’m gone.” (Você não engana ninguém esperando para ver se eu parti). Olha groove querido, não que você tinha que partir, mas também não precisava ir tanto para o lado funk music, né? Vamos manter na linha do rock que tá tudo certo. Nem a letra se salva.

06 – What’s Goin’ On Here – 4:55

A sexta música do álbum traz uma influência do blues, não só na guitarra que arrebenta desde os primeiros acordes, mas também no ato de contar uma história com a letra. Tudo bem que o tema é bem rock ´n´ roll, com bebedeiras, mulheres e ressaca, muito válido para uma banda nos anos 70. Os primeiros quinze segundos há o diálogo intenso da guitarra, do teclado e da bateria, e em seguida a voz quase rouca de Coverdale. “Roll me over slowly, i’ve been drinkin’ all night,/ Help me make a move, i can’t stand the light.” (Me levante devagar, eu andei bebendo a noite toda / Me ajude a dar um passo, não consigo suportar a luz) Para então terminar com: “Spent the night chasin’ up a listed old flame, / Lyin’ on the floor i can’t remember her name. / I can’t stay here, there’s something wrong here. / What’s goin on here?” (Passei a noite à caça de uma velha paixão/ Deitado no chão não consigo lembrar o nome dela/ Eu não posso ficar aqui, há algo errado aqui / O que está acontecendo aqui?). O problema é ela ter ficado quase por último. Tudo bem que, se formos pensar na estrutura do LP, ela estaria como segunda música do lado B. Mas, ouvindo em sequência até aqui, dá pra se perder um pouco nesse mix musical que “Burn” traz, especialmente depois de “You Fool No One”. A música “What’s Goin’ On Here” é muito boa, mas fica apagada e parece totalmente fora de contexto nesse caso.

07 – Mistreated – 7:25

“Mistreated” é com certeza uma das estrelas de “Burn”. Ela começa com quase 30 segundos de um esplêndido solo de guitarra, e uma tímida bateria, apenas para marcar o tempo. O conjunto todo soa com uma sensualidade incandescente que, novamente, é temperada pela voz rouca de Coverdale. Reflete também toda a melancolia e a dor de ser “Mistreated”. Aquela coisinha que fica batendo no peito, contra a sua vontade. “Cause I know, yes, I know I’ve been mistreated./ Since my baby left me I’ve been losing, I’ve been losing, / I’ve been losing my mind, baby baby babe.” (Pois eu sei, sim, eu sei que eu fui maltratado. / Desde que minha garota me deixou eu ando perdendo, eu ando perdendo, / eu ando perdendo a cabeça, baby baby baby). Sua garota (ou garoto!) também te deixou? Coloca “Mistreated”, dá aquela sofridinha básica, e depois volta para o “Burn”, porque, vida que segue!

08 – ‘A’ 200 – 4:16

Bem, essa eles deixaram para o final porque é o maior desafio do álbum. O destaque é total para a Paice e Lord. “‘A’ 200” é experimental até no nome, com uma certa influência oriental, japonesa e indiana. E a bateria bem militar, soando como marcha de guerra. Tudo isso ao mesmo tempo. São quatro minutos de música instrumental.

A conclusão é que, ok, “Burn” não é exatamente uma máquina de hits de sucesso, mas não é um fracasso como muita gente clama por aí. Muito por conta do contexto em que ele foi criado. Afinal, observando todo o processo de criação do álbum, e as condições em que a banda se encontrava no momento. “Burn” foi gravado em três meses, com dois integrantes novos e conseguiu sim um produto final original e de personalidade, um pouco esquizofrênica e bipolar, é verdade. Talvez com mais tempo de produção, trabalho e uma maior sincronia e até mesmo intimidade entre os integrantes, transformasse o álbum em um grande sucesso.

Formação:

David Coverdale – vocal principal
Ritchie Blackmore – guitarra
Glenn Hughes – baixo, vocal
Jon Lord – teclados
Ian Paice – bateria

Faixas:

01 – Burn – 6:04
02 – Might Just Take Your Life – 4:36
03 – Lay Down, Stay Down – 4:15
04 – Sail Away – 5:48
05 – You Fool No One – 4:47
06 – What’s Goin’ On Here – 4:55
07 – Mistreated – 7:25
08 – ‘A’ 200 – 3:51

*publicada originalmente em 27 de novembro de 2017, na Roadie Metal.

Publicado por Daniela Farah

Daniela Farah é curitibana de coração, jornalista formada pela PUC-PR e sempre esteve ligada às artes, estudou produção cênica, língua portuguesa, literatura e violão no Conservatório de MPB do Paraná. Tem o blog “Adanibella – Todo dia é dia de Poesia” para trabalhos literários, é redatora da Roadie Music e participa do grupo Mulheres e Poesias.

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