Rodrigo

Era sábado. Rodrigo acordou cansado, porque a semana tinha sido pesada. Mais um dia desses, levando a um labirinto de portas e janelas que não fazem sentido. Ele se levanta apenas porque as costas doem, e os olhos se cansam de olhar o branco amarelado encharcando as paredes. Coloca uma camiseta do Ramones, tão batida que os fios já nem sabem mais que são pretos. O tempo aqui importa tanto quanto o relógio que ele não carrega. Em um instantâneo, nem se lembra mais disso e fecha os olhos para ouvir a música. Nada suave. Dedos mergulhados nas cordas da guitarra e maciças batidas de bateria. Rock. Isso sim fazia sentido. Tanto que não hesitou em nenhum momento em entrar no mosh e se jogar no meio de outros caras, como ele, que se jogavam, como ele, contra si mesmos. Era a glória. A grande manifestação da existência humana em um segundo. E em um segundo, enquanto exercia seu poder sobre si, com um pulo que exigiu todas as forças, não mais ouviu a música, nem sentiu os corpos que o atropelavam. À sua volta apenas existia um branco cintilante. Morreu? Conferiu os sentidos e encostou nos ombros. Lembrou-se que a gente sabe que está vivo quando o coração bate e colocou o dedo indicador e o médio no pulso. Nada. Estava morto. Estava morto, estava mesmo morto. Quando sentiu o peito. Era o coração.

Rodrigo se abaixou para amarrar o tênis. Percebeu uma delicada e fina linha embaixo de seus pés e esticou a mão atravessando o nada. Observou com mais atenção, parecia que estava numa caixa, cintilando o branco, e que as divisórias eram uma membrana. Sapateou por alguns minutos para ver o que acontecia. Nada. Socou as paredes. Nada. Pulou. Pulou cada vez mais forte. Jogou-se contra as divisórias. Encostou em alguém que soltou um grunhido. Ele não conseguiu ouvir direito porque a música estava alta. Tudo escuro de novo. Era um show. Era o mesmo show que ele estava. Ficou confuso porque tinha certeza que estava em outro lugar. Branco cintilante. Algum tipo de droga, talvez? Olhou para as saídas de ar. Contou quatro. Todo mundo parecia normal. Bebeu alguma coisa? Fechou os olhos e ouviu a música. Era a sua preferida. Balançou a cabeça, cantou a plenos pulmões. Seja lá o que fosse, estava vivo. Estava muito vivo. Nada melhor para provar isso que um mosh. Entrou na roda, bateu em todo mundo. Jogou-se contra um cara bem magrinho. Um grandalhão vinha em sua direção. Chocou-se contra ele, esperando a pancada de volta.

Rodrigo não sentiu e não ouviu nada. Estava novamente na caixa. Branco cintilante. Membrana. Coração batendo. Podia sentir a adrenalina percorrendo o corpo. Jogou-se contra a parede com força. Estava no show. Agora tinha certeza que eram os moshs. Jogou-se contra os caras da sua frente. Estava na caixa. Mosh. Show. Mosh. Caixa. Aquilo era mais divertido que qualquer coisa que tinha feito antes. Ele não se importava mais. Tinha dominado a arte de atravessar as coisas ao se chocar contra elas. E então começou a fazer isso num frenético ritmo. Mosh. Show. Mosh. Caixa. Mosh. Show. Bateu a cabeça na quina da caixa de som. Sentiu o sangue escorrer pelo rosto e caiu no chão.

Publicado por Daniela Farah

Poetisa, escritora, jornalista, observadora da sociedade, pensadora da vida e curiosa. Fiz minha primeira poesia aos oito anos e desde então nunca mais parei de escrever. Ainda criança gostava de contar histórias sobre coisas da minha vida que nunca tinham acontecido.

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