O croissant

Eu tinha viajado a noite toda, só algumas balinhas no estômago. Até hoje se fechar os olhos, sinto o gosto de lavanda. Se fosse para identificar um país pelo sabor, a França com certeza teria esse, e também de mar salgado. As águas geladas de Nice são lindas demais para não levar na memória. Logo após cruzar a fronteira, o ônibus parou. Tudo estava muito escuro e o carro muito largo para aquela estrada. Da janela era possível ver somente o buraco negro que cercava tudo. O motorista deu ré e fez uma manobra perigosa às três da manhã no pé de um morro. Pegou o caminho errado e estava subindo a montanha. Se eu morrer aqui, morro feliz. Nunca senti tanta paz em relação com a morte quanto naquele momento. Ainda que fosse um acidente horrível, tudo parecia fazer sentido. Bom, se eu estou aqui contando essa história você já sabe que nada aconteceu. O ônibus conseguiu fazer a volta quase que como por milagre e seguimos caminho.

A cada luz da manhã que se aproximava era possível ver o branco nas montanhas. Foto nenhuma faz jus a beleza da aura azul envolvendo tudo. Eu não sei dizer se realmente tudo estava encoberto pela névoa e a única coisa que se destacava era a montanha ou se era porque a sua beleza ofuscava o resto. A verdade é que o branco realmente se destacava no azul-escuro dos primeiros raios da madrugada. Por volta das seis da manhã chegamos no estacionamento e eles estavam me esperando. Meus tios estavam visivelmente atrasados para o trabalho e pegamos a estrada na sequência.

Fiquei pensando que os suíços têm carros bons por necessidade mesmo. Depois descobri que você consegue andar a cidade toda a pé, se quiser. Pequenas cidades que se conectam pela rodovia. E lá estávamos nós, num lugar que até hoje não sei pronunciar. Um vilarejo com dois mercados e um centro comercial que lembra muito a ágora. Não que eu já tenha estado em uma, mas a praça no meio com a prefeitura, o correio e outros negócios importantes em volta me deram essa impressão.

Depois de me instalarem, eles foram trabalhar. Eu fiquei com o Jonny, um urso branco em forma de cachorro simpático e o pequeno briguento pinscher que depois de um dia sumiu com a minha meia. Todo o cansaço das mais de seis horas de viagem bateu forte e eu dormi por horas. Eu estava só com as balinhas de lavanda no estômago e, portanto, morrendo de fome. Quando entrei na cozinha vi um pacote que estava separado. Meu tio tinha comprado um croissant para o café da manhã. Uma mistura perfeita de leite, ovo, manteiga e maciez que desceu como se fosse carregado por nuvens pela minha garganta. Foi a coisa mais gostosa que eu tinha comido em dias. Eu sempre fui do time do pão francês, mas aquele croissant me arrebatou como um prêmio. Comida costuma acalmar meu coração e eu nunca tinha sentido uma paz como aquela. Perfeição. Todos os sabores eram individuais e ainda assim misturados.

Sei o que vocês estão pensando, eu também estive nesse lugar. O sabor foi efeito da fome e da viagem, nem devia ser tão bom assim. Era. Os dias se seguiram com gosto de família e uma certa monotonia melancólica que só um vilarejo proporciona. Nunca tinha estado num lugar assim. As pessoas eram muito educadas, ainda que eu não entendesse uma só palavra. A estação tinha acentuado as flores e o sol era fresco durante o dia. Eu aproveitei para passear com os cachorros e assim meu tio podia descansar no horário de almoço. Minha tia e prima só chegavam no fim do dia. Em um dia de folga elas me levaram para passear nos lugares lindos em volta. E foi aí que eu encontrei com ele de volta. “Meu amor, aqui tem aquele croissant que você gostou tanto”, o tom carinhoso de minha tia foi quebrado pelo meu espanto. Um posto? Na minha imaginação aquele pedaço de céu tinha visto de uma padaria artesanal que tinha uma vaca no quintal. Naquele momento tive certeza que o sabor do croissant tinha vindo da alucinação causada pelo cansaço da viagem. Não era possível.

Ela voltou com saquinhos de papel, um para cada. A descoberta tinha matado minhas esperanças de ter de volta a harmonia, a paz de uma comida perfeita. Descrente, dei a primeira mordida, parecendo mais um crítico que busca o erro. Ali estavam o leite, o ovo, a manteiga e maciez. Perfeição. A simplicidade dos elementos em tamanha harmonia trouxeram paz. Os dias naquele país de língua tão estranha passaram rápido. Embarquei numa manhã ensolarada rumo à Itália. Dessa vez a paisagem me acompanhou durante quatro horas, com o azul brilhante do lago e me despedi da montanha do cartão postal.

Publicado por Daniela Farah

Daniela Farah é curitibana de coração, jornalista formada pela PUC-PR e sempre esteve ligada às artes, estudou produção cênica, língua portuguesa, literatura e violão no Conservatório de MPB do Paraná. Tem o blog “Adanibella – Todo dia é dia de Poesia” para trabalhos literários, é redatora da Roadie Music e participa do grupo Mulheres e Poesias.

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