A Tenda

Eu era só um menino. Não sei se eu saberia descrever a grandiosidade daquelas tendas, ou por ser um menino elas eram grandes o suficiente para me impressionar. Haviam dezenas de homens sujos e com suor do trabalho. As tendas até me lembravam o circo em que estive uma vez, porque eram lonas amarradas a grandes círculos cravados no chão. Mas a semelhança parava ali. As do circo eram coloridas e aquelas eram cinzas, e não se podia dizer exatamente a cor de tão sujas que estavam. AS tendas do circo traziam alegria e conforto, e aquela ali só podia se ver a aspereza do fogo e o tilintar de metais sendo batidos. Ferro batido, esse era o som que me acompanhava durante todo o tempo praticamente, e as vezes a noite, quando acordava assustado de madrugada podia ouvir ainda, mesmo no silêncio.

– Vai ficar aí parado, menino? Tem trabalho para fazer.

– Não, senhor. Eu já vou.

– O Sanches está descarregando, vá ajudá-lo.

– Sim, senhor.

Guardei minhas coisas na bolsa de couro que sempre andava comigo e a escondi debaixo da blusa. Não que eu tivesse alguma coisa de valor, porque ali eu era o último que teria acesso a qualquer coisa que valesse a minha vida, e também não queria. Fui cumprir a minha dívida apenas e fazer o que tinha que ser feito. Era isso que eu estava fazendo ali, nada demais. Não tinha a mesma doença daqueles homens, que chegavam a ter seus olhos saltados e a pele seca e enrugada. Não era da velhice porque tinha muitos ali que não chegavam a ter muito mais idade que eu e já estavam assim. Viver debaixo de toda aquela fuligem, sem dormir e sem comer, deixava qualquer um com aspecto triste e cansado. Mas aqueles homens, eles tinham os olhos arregalados, como se a pele em volta estivesse colada para que nunca se fechassem. “Não deixe que te passem para trás.” Eles diziam. “Você tem que ficar atento a tudo.” E ainda a que eu mais acreditava “Nunca confie em ninguém.” E por isso eles viviam numa espécie de devaneio ou delírio mesmo. Não se podia mexer com um homem que está perdido dentro da sua própria insanidade. Então eu os evitava, quando podia.

Sanches era um homem calado, eu não me importava em trabalhar com ele, aliás, era o único que eu gostava. Ele estava ali porque não podia estar em outro lugar, se pudesse estaria numa cabana em algum lugar com vista alta, fumando seu cigarro tranquilamente em uma cadeira quieto e pensativo. Ao menos eu o imagino assim. Mas já não sei se teria mulher e filhos. Porque ele vivia tão preso no seu mundo que criava em sua cabeça que não seria capaz de dividir com outra pessoa.

Mas todos tínhamos os nossos segredos e o porque de estar ali. Exceto pelos que tinham a doença, ninguém queria estar ali. Todo mundo fugia de alguma coisa. Dizem que o Tico, era um ladrão que entrou para a companhia para não ser preso. O ferreiro tinha matado um homem a marteladas porque dormiu com a sua mulher. O cozinheiro, esse ninguém sabia, e ninguém tinha coragem de perguntar, mas uma vez deu a entender que já esteve preso. O que muita gente desconfiava porque nessa época, não era possível sair da cadeia, a não ser para uma vala comum.

Eles diziam que não havia mais escravos, bobagem, todos éramos, sem exceção. Da dívida, do passado, do ouro, da promessa de uma nova vida, não interessa qual fosse o motivo. Você trabalhava o dia todo, comia uma ou, quando muito, duas vezes ao dia. Dormíamos embaixo das tendas, em esteiras improvisadas de pele de animal, cobertas por qualquer coisa que servisse para aquecer. Tínhamos o mínimo para não morrer e continuar trabalhando.

Não que a vida tivesse muito sentido, porque honestamente, não havia como sonhar com as coisas. Não havia coisas para sonhar. O máximo da felicidade, se é que se podia dizer assim, era ter comida quente, e uma cabana para que estivesse protegido do tempo e das circunstâncias. Acho que por isso imagino Sanches assim. Mas eu era novo, e não sabia nada da vida.

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