A Vida de Elisa

Depois de três dias em choque, Elisa acordou decidida. Parecia mais um daqueles momentos da vida em que se perde o ar, mas só percebe depois de alguns minutos, então se respira aceleradamente. Ela se sentia assim, como se tivesse se esquecido de respirar e de repente lembrou que respirar é essencial para a vida. “O que eu faço agora?” Enquanto ela estava deitada decidindo, ouviu um barulho na porta. Era de chave. Paulo!

– Elisa, cadê você? Está tudo bem? Te liguei diversas vezes e você não atendeu. Fiquei preocupado. Como você me dá um susto assim? Tive que largar a temporada na metade para vir aqui e deixei aquele italiano maldito me substituir! Você estava dormindo? Usou drogas?

Paulo que está de pé, em frente à cama, coloca as mãos na cabeça e dá um suspiro profundo. Elisa continua apenas olhando toda aquela movimentação.

– O que está acontecendo com você Elisa? Você enlouqueceu? Sabe o quanto aquela temporada em Israel é importante para mim. Liguei até para a Kátia. Você sabe que eu não a suporto, aquela ignorante disse ter vindo aqui e você não atendeu. Deve ser um esquema, um acordo que vocês fizeram para me sacanear. Como você pode Elisa?

– Eu quero me separar de você!

– O que? Do que você está falando? Eu não vou me separar agora! Seria péssimo para a minha carreira.

– Eu não me importo, Paulo. Eu não me importo mais. Nem com você, nem com a sua carreira, nem com o que você acredita. Eu cansei. Cansei de ser um bibelô que você carrega para mostrar aos outros a sua vida perfeita. Você não vai mais me usar para impulsionar a sua carreira, ou o que quer que você ache utilidade.

– Elisa? Meu amor. – Disse Paulo se ajoelhando na cama – eu te amo. Do que você está falando?

– Acabou, Paulo. Dessa vez, acabou.

– Você não pode fazer isso comigo! Você não tem esse direito.

– Direito? Você me deixou sozinha, todo esse tempo, sugou tudo o que eu tinha de melhor e vem reclamar por direito?

– Eu estava trabalhando para sustentar você. Sua vidinha medíocre de escritora.

– Para me sustentar? Você enlouqueceu? Eu sempre trabalhei, essa casa é minha, comprei com o meu dinheiro. Dinheiro do meu trabalho, Paulo. Nunca precisei de você para nada. Aliás, nem sei por que eu fiquei tanto tempo com você. Mas eu sei de uma coisa, nunca mais a gente vai ficar junto de volta. Acho bom você juntar suas coisas e achar outro lugar para você.

Paulo sentou na cama. Os dois ficaram alguns minutos em silêncio. Ela sentia que alguma coisa se acendia, uma pontinha de esperança, talvez.

– Vou fazer uma coisa Elisa. Vou para um hotel e a gente conversa melhor amanhã.

– Pode ser, Paulo. Mas eu não vou mudar de opinião. Nem amanhã, nem depois, nem nunca. Demorei, mas agora eu sei o que eu quero. Eu quero ser feliz. – Disse Elisa em meio às lágrimas.

Paulo também chorou. Fez uma mala pequena e saiu. Toda aquela situação magoou Elisa profundamente, ela sentiu o seu coração se despedaçar quando ele passou pela porta. Porém ela não estava arrependida. É como quando você tira um espinho, o buraco fica por uns dias ali, mas você não pode conviver com o espinho a vida toda, certo? Ela pensava dessa forma.

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