Uma História Trágica

O discurso dele era o máximo, preenchia você com um eco irracional. Não tinha explicação. Ela ainda se perguntava porque tinha acreditado naquilo tudo, mas não era uma revolta interna, era uma tristeza, uma decepção consigo mesma por ter passado tanto tempo ouvindo tanta canalhice. Não havia muita explicação, havia o silêncio e era assim que tinha passado seus dias desde o infeliz incidente. Criada em puro berço ariano não se permitia ceder a revolta de moralidade, devia estar acima disso, mas não estava, não saberia dizer a diferença de ser quem ela era.
– Então é aqui que você está escondida? Se não fosse por essa maldita criança, você já devia estar morta. Eu mesma devia matá-la. – disse Frau Herta seguindo com uma série de insultos.
Ela não ligava mais para essa ladainha, continuava olhando para a janela, mas como se estivesse muito longe. Frau Herta era uma daquelas mulheres que sabem ser rudes até nas pequenezas dos gestos. Ela continha um ódio interno tão grande quanto a língua imensa. Os cabelos eram claros e sempre presos, com dois buracos no lugar dos olhos.
– Eu não me importo com o coronel, isso ele não pode escolher, mas como o Herr Heilshiner foi escolher uma esposa tão fraca como você. Um homem tão viril, tão leal ao partido. – suspirou – e com tantas coisas mais interessantes a fazer, eu tenho que ficar aqui cuidando de uma maldita mulher grávida.
– Pelo menos você não passa fome. Disse irrompendo o silêncio
– O que você disse?
– Eu disse que você não passa fome.
– Quando essa criança nascer, virei aqui te estapear todos os dias.
“Quando essa criança nascer, eu estarei morta.” Um certo arrependimento correu-lhe a espinha. Ela sabia que não podia ter feito aquilo.
Tudo começou muito antes daquela praça. Era uma festividade, linda. Ela estava acompanhando o marido. Eram o casal de futuro naquela Alemanha de 1934. Ele, um comandante, um líder do alto de seus 1,90 metros, com olhos azuis tão reluzentes quanto possível. Com uma força alemã e uma integridade impossíveis de serem encontradas aquela altura. Ela tinha uma beleza tão clara quanto a luz do sol. Vinha de família tradicional, era incrivelmente inteligente. Fora criada para tudo aquilo. Sempre com aparência impecável, sem arrogância, porque uma mulher jamais deve se exceder, e inteligente o suficiente para não deixar nenhum homem perceber isso. Apenas sorria, dizia a sua mãe. Conhecia Heilshiner desde criança, e sabia tantos segredos seus quanto ela podia supor. Ela já perdera a conta de quanta coisa tinham passado juntos. Ele a amava com aqueles olhos azul cúmplice. Todas aquelas tardes de verão no rio, era como se a vida nunca mais fosse acabar. E então começaram os discursos inflamados. Ela nunca comentou assuntos políticos. Em toda a sua vida conhecera apenas uma judia, com quem não se dava muito bem. Amanda Stein lhe disse na infância que jamais poderia ser melhor do que ela. Maldita judia! Ela pensava, e só. Sem ódio, sem rancor, sem destruição de lares. Apenas achava Stein petulante demais, como qualquer outra criança que fosse competir com ela. O resto ela conhecia de vista, de quando ela e Heilshiner fugiam para se encontrar. Afinal uma garota como ela namorava apenas pelas pernas embaixo da mesa e os olhos famintos em um jantar com toda a sua família e só. Até o casamento seria assim. Mas nada detém um casal apaixonado.

Desde o início, ela participava dos jantares para decidir sobre o partido. Seu pai era fervoroso. Seu noivo não acreditava muito, mas sabia que só se casaria com a bela paixão de toda a sua infância se conseguisse conquistar o sogro. Eles entraram de cabeça após o primeiro discurso daquele homem baixinho, mas que falava com tanta raiva e tanta certeza do que estava fazendo que conquistava qualquer um que ouvisse. No início algumas coisas pareciam absurdas e no fundo eram, mas ficavam tão maravilhosas quando entoadas naquela voz. A primeira vista ele era maravilhoso, conquistador, misterioso. Apertou suas mãos, lhe olhou nos olhos e disse que formavam um casal perfeito, a cara da nova Alemanha. Ele, em pessoa. Impossível de acreditar. Isso por si só já era encantador. Até então ela nunca se ateve muito aos detalhes, e o marido nunca lhe explicou exatamente o que acontecia. Ele mesmo não acreditava, mas executava ordens como ninguém. E após convencer o sogro de seu valor, ele mesmo se perdeu naquele emaranhado de histórias mal contadas.
Mas vamos aos fatos. era verão. o sol reluzia no alto do céu naquele instante. e ela estava radiante, grávida de seu primeiro filho,uma criança fruto de um amor tão impossível de ser contado para aquela época. Era assim mesmo que a sua vida deveria ser, estava sentada ao lado do marido, com todo o orgulho possível. e então ouviram aquela marcha com pés pesados como se rochas caíssem das montanhas. O silêncio era incomum e uma voz gritava: vamos seus porcos. E apesar de nunca realmente ter parado para pensar o suficiente na teoria das sub raças, não concordava totalmente, ou talvez não lhe passasse o que realmente ocorria da porta para fora de todo o seu palácio, várias pessoas sujas, com tecidos que lhe cobriam o essencial e deixavam a mostra a pele seca e osso sobressalente de seu corpo frágil.
– Lembra do que lhe pedi – disse Heilshiner – para imaginar uma marcha de formigas? Então é agora.
Ela tentou olhar para eles como se não fossem gente. Como se fossem um pedaço de qualquer coisa que encontramos no caminho. Mas ao contrário de pessoas como a Frau Herta, que enchia seus pulmões com um orgulho e um senso de justiça inexistente. Não conseguia acreditar naquilo que via diante de seus olhos. Então de repente ela reconheceu dois olhos raivosos, sem piedade, sem luta, mas com raiva morta.
– Amanda Stein.
As pessoas em volta olharam para ela como se uma máscara tivesse caído. Como quem olha para o mordomo e descobre que o tempo todo era ele o criminoso. Justo a pessoa que tanto confiavam, admiravam. Não se podia fazer uma traição dessas. E isso estava explícito em seu rosto. Acabara de descobrir que havia sido enganada, aquilo fazia parte dela. e uma parte assim não se corta, não se tira fora dessa maneira. Ela sabia dessas coisas, não podia dizer que não. ouvia uma conversa aqui e ali. nem na pior surra que poderia ter levado em toda a vida saberia o que eles estavam passando. Só então percebeu que não esteve ouvindo as palavras certas. que em vez de justiça, ela deveria ter ouvido tortura. Pode-se dizer que só ali ela realmente percebeu do que tudo se tratava e no que havia se metido. Quis sair correndo, pegar Amanda pela mão e fugir. Aquela maldita judia só servia mesmo para lhe atrapalhar a vida. ela tinha que estar ali justo naquele momento? Sentiu a mão forte e calejada do marido lhe dando um puxão para a realidade.
Ele lhe disse baixinho
– Querida, se concentre nas formigas e sorria. Vamos, sorria, pense no nosso filho.
Ela sorriu porque sabia que devia fazer aquilo. Porque era o certo. mesmo que Amanda lhe fitasse os olhos. Stein ao ver seu sorriso cuspiu como a maior ofensa. ela sabia que era para ela. era um pedido de ajuda como só os inimigos podem fazer.
Stein fez o pedido para a única pessoa que podia ajuda-la. Levou um bofetão e ouviu:
– Sua porca imunda. vai lamber o chão agora.
Uma mão pegou seu pescoço e estirou seu rosto no cuspe. tudo isso feito com o maior prazer que se pode ter notícia.
Tudo rodopiou, ela perdeu o chão e logo depois veio o desmaio. Normal para uma grávida, trágico para uma Alemanha nazista.

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